Recado da Luz para todxs!

Mãe, rapper, paulista, oriunda de um grupo de hip hop chamado Mamelo Sound System…  mulher!

 

Estou falando da Lurdez da Luz:

Em seu currículo, parceiros de peso como: Naná Vasconcelos, Nação Zumbi, Afrika Bambaataa e vários outros. O que eles tem em comum? Todos são homens! Apesar já ter trabalhos com mulheres, como feitos com a MC Stefanie (em Andei), e nos projetos Mercurias (com a cantora Marietta) e Minas do Rap (com 3 MCs e uma DJ).

Nessa semana especial, onde estamos honrando mais do que nunca o poder feminino, batemos um papo com a moça e ela soltou o verbo. Segue aí!

MI – Muitas pessoas já devem ter te perguntado como é ser mulher rapper no Brasil, o que eu quero saber é: como é ser mulher no Brasil?

Da Luz – É ter muito mais deveres que direitos. É saber que pra ter qualquer destaque em quase todas as áreas de trabalho você vai ter que ser no mínimo 2 vezes mais instruída ou talentosa que qualquer homem. Lidar com as estatísticas absurdas de todo tipo de violência desde de criança. Enfim é ter várias possibilidades limitadas. 

MI Você acha que a mulheres já conseguem dizer o “eu posso” ao invés do “eu poderia”?

Da Luz – Podem sim. Com dificuldades maiores, arcando com consequências, mas sim, se a mulher é consciente de quem e do que quer e está disposta a arcar com o que acarreta suas escolhas. Claro que pra várias mulheres é mais difícil que pra outras e, isso tem a ver com classe, raça e até mesmo com educação, estrutura familiar e com como foi possível se construir como mulher. 

MI – Levando em consideração o papel importante dos artistas na formação de opinião das pessoas, como você analisa a cena do rap feminino no Brasil?  

Da Luz – Ainda em construção… Existem poucas minas sendo ouvidas por quantidades maiores de pessoas e essa quantidade comparada à outros gêneros ainda é pequena. Mas já existe cena, já existe uma quantidade de mulheres envolvidas de verdade e se desenvolvendo, mas existe ainda uma dificuldade para produzir e colocar no mercado esse trabalho.  E tem um monte de fatores pra isso, a dependência dos homens pra produção desde o próprio discurso, estarmos fora dos padrões de comportamento e estéticos, tem a questão racial pois se trata de um cultura negra em sua origem, tem uma questão de classe pois se trata de uma cultura periférica, dai se pra alguns caras o reconhecimento é recente, imagina pras minas. Mas existe sim uma mudança de comportamento, nas atitudes de toda uma geração de mulheres e as minas do rap com certeza tem a ver com isso, não só as que fazem como as que escutam. 

MI – Você acha que há mulheres (musicistas) que se dizem feministas para tirar alguma vantagem disso?

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Da Luz – De forma nenhuma! Pode até ter uma certa confusão ou superficialidade nessa difusão do feminismo mais atualmente, mas a construção de consciência – assim como a desconstrução de paradigmas – é legítima. 

MI – Quais as mulheres que te inspiram?

Da Luz – São muitas. Mas poderia destacar as cantoras e compositoras do samba, eu imagino o que devia ser querer improvisar numa roda compor um enredo pra uma escola a uns 40 anos atrás.

MI – Como você acha – ou espera – que inspira as mulheres que te escutam?

Da Luz – Eu num sei… Já me disseram coisas lindas sobre o meu trabalho, tanto homens quanto mulheres de todas as orientações sexuais possíveis assim como de todas as raças e várias nacionalidades. Mas a palavra chave aí é essa mesmo, eu só espero inspirar as pessoas. Não tenho vontade de representar nenhum gênero ou classe social, nem o rap em si… Eu faço arte justamente pra estar além de qualquer classificação. Só espero ser honesta. 

MI – Uma palavra que falta no dicionário das mulheres é…

Da Luz – Nenhuma! Podem até querer que não saibamos seus significados ou que não pronunciemos algumas, mas faltar? Não nos falta NADA.