As mulheres da música atual que mais inspiram – por Mari Gomes

Who run the world? Girls! Na época do lançamento desse hit da Beyoncé, passei dias inteiros escutando e dançando “Girls” ao lado de minhas primas e minha irmã. Era tanto poder numa canção só que ficávamos instantaneamente contagiadas. Agora isso é uma lembrança de infância – que me recrutou para o lado Queen Bey da força. Entretanto, se antes de “Girls” eu ficava na dúvida, hoje em dia tenho certeza que nós mulheres comandamos o mundo, inclusive a cena musical.

maiavox

Deixe-me apresentar-me. Sou Mari Gomes: jovem, mulher, negra e criadora do blog Maia Vox, um lugar de conversas para distrair, empoderar e celebrar. Sempre fui curiosa e aos 12 anos entrei na blogosfera para compartilhar o pouco que já sabia. Hoje vim dividir com vocês as mulheres da música contemporânea que mais me inspiram e me representam.

Para mim a graça da música mora justamente no fato de abrir os nossos ouvidos a novos universos de ideais e sentimentos, que se acumulam e revolucionam nossas almas. Quando eu passei pela transição capilar, processo em que assumimos nossos cabelos naturais, muito mais do que a estética, vários questionamentos me surgiram e o maior deles foi: onde estão as mulheres como eu? O que eu vi pela mídia foi uma representação majoritariamente negativa, mas curiosa como sou, fui atrás de mais respostas e no mundo da música encontrei várias mulheres em posição de poder. Pelo visto vocês já perceberam que a Beyoncé revolucionou minha alma e está entre elas.

Uma das maiores artistas da atualidade, Beyoncé tem uma carreira sólida com fãs ao redor do mundo.  Em 2011 deu um grande passo em sua trajetória musical, iniciada desde a infância: administrá-la por conta própria. Se existiu alguma dúvida na continuidade de seu sucesso, elas desapareceram com o emplacamento de novos, ao exemplo do seu último álbum, com hits como Drunk in love e Flawless. De lá pra cá, Beyoncé também reformulou sua imagem, atrelando cada vez mais questões de empoderamento feminino.

bey

Queen Bey inspira pelo jeito confiante de se expressar e por isso se transformou num fenômeno social, com direito a estudos em Universidades, já que não é toda hora em que vemos, numa sociedade racista e sexista como a nossa, uma mulher negra ter a influência que ela tem. Também é exemplo por se manter ligada às raízes, contando significativamente com ajuda de mulheres em sua vida (My sister told me I should speak my mind – Flawless) e saber aproveitar as oportunidades para colocar o dedo na ferida da sociedade. Sua nova canção, Formation é o retrato disso, pois entre boicotes e chiados, abriu-se uma discussão pertinente sobre a questão racial nos EUA. E para quem insiste em criticar por criticar a mensagem é clara: a melhor vingança é a sua fortuna (Best revenge is your paper – Formation).

Isso nos leva à próxima artista, a eletric lady Janelle Monaé. Ligada no 220v, Janelle é cantora, compositora, bailarina, lidera sua própria gravadora (o coletivo Wondaland Records) e de vem em sempre usa sua voz em protestos.

monae

We Are Young, canção que participou ao lado do grupo Fun, foi a primeira vez em que a escutei. Bisbilhoteira que nem eu, corri atrás para saber quem era aquela mulher maravilhosa de smoking, topete e batom vermelho no clipe. Assim cheguei no último álbum da Monaé, o The Electric Lady e fui conquistada profundamente.

Desse álbum em especial, Q.U.E.E.N. é a música que mais me apeguei. Por que? Do título (um acrônimo para Queer, Untouchables, Emigrants, Excommunicated e Negroids, identidades essas marginalizadas) à nota final, essa canção é sobre amar a si mesmo ainda que outros ao redor sintam-se incomodados com quem você é (Even if it makes others uncomfortable I will love I am). Para mim, que estava na época da transição capilar, Q.U.E.E.N tornou-se um mantra na vida.

Nessa mesma faixa do The Electric LadyMonaé revela seu cerne para protestos (March to the streets ‘cause I’m willing and I’m able), por sinal bastante evidenciado no ano passado, quando ela e seus associados da Wondaland Records, juntaram-se a marchas do movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam, ao pé da letra) nos EUA, criando até uma espécie de hino, o “Hell You Talmbout”, em que relembram algumas vítimas da violência policial contra a comunidade negra no ano de 2015.

Já imaginou de onde vem toda essa eletricidade da Janelle, que lhe faz desdobrar-se em mil ocupações? Pois é da família, sobretudo das figuras femininas, como a mãe e a avó dela. Foi pelo aprendizado delas que hoje Janelle não se cala diante dos desafios e supera os rótulos que lhe colocaram.

Por último, e certamente não menos importante, está a Karol Conká nesse meu hall de representatividade. De promessa à grande nome do rap brasileiro, Karol bancou sozinha seu primeiro álbum e através da internet começou a ser conhecida. Nascida e crescida em Curitiba, ela já contou em entrevistas que se sentia incomodada com as letras dos rappers que faziam sucesso e decidiu ser a porta voz feminina e negra no meio.

karolconka1

A primeira vista nos encantamos com os cachinhos rosas da Karol – hoje em dia tranças do rosa mais choque que existe, mas a partir do momento em que escutamos sua rima é difícil não amá-la. O último álbum dela, o Batuk Freak, de 2013, foi o que alavancou sua carreira e fez seu nome ser visto por todos os cantos da internet. Desde o dia em que ele apareceu na minha timeline, esse álbum foi o que mais escutei na transição capilar. No decorrer das faixas aprendemos a amar a beleza natural e por isso ela é espelho para muitas mulheres negras jovens, dentro e fora dos palcos.

Engana-se quem pensa que suas letras são feitas apenas para dançar como em Toda Doida, parceria com Boss In Drama. Através de seu trabalho, Karol ensina a “tombar” na sociedade e se posiciona contra o racismo e o sexismo. Em Bate A Poeira ela discute o preconceito racial velado que existe no Brasil. Já em Sandália, canção influenciada pelo reggae jamaicano, fala da menina que têm vontade de sair sozinha por aí e que por isso não merece ser julgada por menos.

Além de seu rap feito para incomodar pensamentos conservadores e preconceituosos, Karoline de Freitas Oliveira, se utiliza das redes sociais para protestar contra atos racistas e machistas. Karol Conká é empoderamento puro.

É por falarem o que pensam, mandarem nas próprias vidas e levarem poder a mulheres ao redor do planeta que BeyoncéJanelle Monaé e Karol Conká são as artistas da música atual que mais me inspiram. A música delas é uma trilha sonora completa para inúmeras mulheres, existindo não só para divertir, mas também para empoderar e lutar contra os estereótipos, sobretudo àqueles jogados sobre mulheres negras.


O blog Maia Vox foi criado por Mariana Gomes em 2012. Pra ler mais textos da Mari, visite seu – maravilhoso – blog!