Música pop é coisa de gay?

Lembro lá no final dos anos 90 e começo dos anos 2000 – quando eu era criança e passei pela adolescência – como era difícil, pra não dizer impossível, encontrar conteúdo de música pop que me fosse apropriado.

Naqueles idos parece que só menina tinha o direito de gostar de música pop. Pelo menos era isso que as editoras, os sites e a maioria dos programas de tv musical “achavam”.

Revistas adolescentes pop

Ora, com internet, que no começo era discada e depois a popularização da internet banda larga, pra ter acesso a fotos, letras e novidades do mundo da música pop, revistas eram ainda uma das fontes mais procuradas. Mas tudo que eu achava quando ia na banca era com cara de “menina adolescente”. Era Atrevida, Capricho, Toda teen, essas dessa laia. Nada direcionado para o menino que gostava de música pop.

Tinha a revista MTV, que era uma das poucas mais neutra. A revista Jovem Pan também preenchia um pouco esse espaço. As revistas Rolling Stone Billboard demorariam um pouco ainda para adentrar de vez no mercado brasileiro. As importadas sempre foram uma fortuna!
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Então era aquela coisa: sempre que eu queria alguma reportagem, alguma matéria, algum pôster ou algum qualquer que seja de música pop eu tinha que pedir o recorte pra alguma amiga caso ela não se importasse, pedir pra alguém comprar pra mim ou ir eu mesmo comprar com a maior vergonha que ainda sentia na época (coisa que superei com o tempo, ainda bem). O livro oficial das Spice Girls – que amo de paixão – comprei usado de uma amiga, por exemplo.

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Sempre existiram as colunas e os cadernos de jornal focados em cultura em que vez ou outra algum artista pop era abordado. Ou em revista de fofoca, cujo público alvo era majoritariamente feminino, claro. Menino tinha que comprar revista de metal, de preferência com alguma cifra, ou revista de esporte radical, nas quais quando tinha algo relacionada à música era ao rock ou reggae.

Nunca me importei de dividir essa preferência musical mais com mulheres do que com homens (sejam eles gays ou não). Mas me irritava profundamente que conteúdo relacionado ao mundo pop não tinha nenhum direcionamento pra meninos e isso acabava fazendo gerar um preconceito musical. Pop era, e ainda é, visto por muita gente (escrota) como “coisa de menininha”, “coisa de viado”. Não muito raro ouvia também algo do tipo “nossa, você ouve Sandy e Júnior? Que coisa de criança”. Quantos segmentos eram possíveis estereotipar e sipá ofender baseado na preferência musical? Caramba hein! E isso vinha de vozes de pessoas de idade relativamente próxima a minha! Não era como os antiquados ecoando estereótipos de que “rock é do demônio” ou “reggae é de maconheiro”. Eram principalmente pessoas da minha geração propagando estes estereótipos que me incomodava!

Estereótipos de pop e de rock
Estereótipos de pop e de rock

É muito cômodo associar as melodias agradáveis e dançantes e as letras que evocavam inocência e espontaneidade à entidades mais femininas. O feminino e o sensível sempre foram alvo fácil de chacota, e com um gênero musical aconteceu o mesmo. E alguns de seus apreciadores pagaram o pato.

O pop como gênero é muito abrangente. Sabe aquele cara idiota do seu ensino fundamental que te enchia o saco por falar abertamente que gosta de Christina Aguilera e Britney Spears? Esse cara provavelmente ouve Maroon 5 – banda maravilhosa, que por sinal já fez parceria com Aguilera e também Rihanna – que é bem pop sim senhores e nunca foi tachado de nada por isso. Esse cara vê os clipes da Rihanna e o primeiro comentário é o de que ela é “gostosa” pra não ter que admitir com todas as letras que do que ele gostou foi da música mesmo (e pode achar a Rihanna bonita também, mas né, vamos usar umas palavras decentes) e que ficou cantarolando Umbrella incessantemente no quarto. Alguns artistas pop são vistos como “sendo mais gays” ou não. Vai entender né! Eu mesmo brinco com essas categorizações música-sexualidade ligadas, mas nunca entendi a necessidade delas ou mesmo como surgiram.

Foi só no final da década de 2000/começo da década de 2010 que as mídias começaram a dar importância direta pra esse público. Obviamente não se sabe o quão genuíno foi esse crescente onda de apoio. Existem pessoas, marcas e empresas que realmente querem representar essa parcela da sociedade e existem os oportunistas momentâneos. E existe o misto dos dois. Ora, percebeu-se que o público LGBT tinha poder aquisitivo que não estava sendo explorado. Aquelas crianças e adolescentes cresceram e viraram adultos ambiciosos, profissionais e independentes. Se não existir um segmento pra eles, seja na música pop ou outro “setor”, eles vão acabar criando um. No fundo, são os LGBT se utilizando de seu poder (seja econômico ou simplesmente sua voz) para influenciar grandes players, em especial a mídia, na qual a música pop está inserida, para sutilmente dizer à sociedade que existem, que não devem ser ignorados e merecem consideração.

dinheiro gay

Amigos heterossexuais homens cis que curtem música pop e não têm vergonha de assumir e não rotulam os outros por curtirem: eu tenho um profundo respeito por vocês!

Se hoje me dizem que música pop é coisa de gay, eu concordo. Eu falo “Ainda bem! Então é meu gênero musical favorito por fatores além da música”!