Quando a música nos salva…

Todos nós temos aquele momento da vida em que somos colocados à prova de fogo, e achamos que não seremos capazes de nos livrarmos de tais situações. Às vezes, enfrentamos elas na companhia dos melhores amigos do mundo, o que torna as coisas um pouco mais fáceis e leves, mas em algumas outras vezes, nos encontramos sozinhos, e por mais que pareça sufocante e pesado o suficiente para que não consigamos, nós conseguimos. E depois de tudo, o que resta é memória, e papo para décadas de histórias. Quando menos esperamos, nos pegamos até rindo do que já passamos e, vamos além, lhes damos uma trilha sonora, porque se pararmos para observar, a música sempre está ali, presente em todos os nossos melhores e piores momentos da vida.

Se vasculharmos pela Internet, veremos diversos casos de pessoas que foram salvas através da música, seja pela admiração por determinados artistas, pelo momento ao quais certas músicas marcaram, pela afeição, pelo motivo que for a música salva!

Mas foi no caso da Alice Herz-Sommer, pianista que sofreu ao Holocausto, que eu encontrei um refúgio para falar sobre música como salvação. A história dela foi documentada e ganhou o Oscar de melhor documentário em 2014. Ela era, na época, a mais velha sobrevivente do holocausto nazi. Morreu aos 110 anos, e tinha história pra dar e vender, mas as mais importantes e emocionantes girariam em torno da nossa amada música, com certeza.

Alice passou por todos os dilemas e problemas rotineiros na vida de qualquer humano – desilusão amorosa, perda dos pais, de familiares e amigos, etc. – mas tinha na música uma fonte inesgotável de fé e esperança.

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“Com a música eu estava sempre feliz. Fui feliz mesmo sem a música, até pensar na música me fazia feliz” – Alice sommer

 

Ela era uma excelente pianista em seu país, República Checa. E em 1943 foi levada para Terezin, um dos campos de concentração nazista. Lá, Alice se juntava a um grupo de judeus eruditos selecionados para fazer a chamada “propaganda”, com o intuito de enganar o mundo mostrando que os judeus estavam sendo bem tratados. Ela tinha que tocar piano para os colegas prisioneiros como se à sua volta nada estranho estivesse acontecendo.

Ela tinha que tocar seu piano e parecer feliz, mesmo estando num campo de concentração onde o único fim seria a morte.

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“A música é a única coisa que me ajuda a ter esperança, é como uma religião. A música é Deus. Em momentos difíceis, você a sente, especialmente quando está sofrendo.” – Alice Herz-Sommer

 

Triste imaginar que há não muito tempo atrás algo assim acontecia nesse mundo, e mais triste é imaginar que hoje em dia coisas parecidas ainda acontecem, e as disfarçam com boas ações descontínuas. No documentário, Alice fala que apesar de todo o sofrimento presenciado, ela sorria, ela estava sempre sorrindo, e disse que tudo é bonito, até a dor é bonita, se a gente souber pra onde olhar. Daí eu penso “Que capacidade era essa? Que sensibilidade era essa, que a fazia passar por tudo o que passou e ainda assim guardar esses momentos sem nenhum rancor, sem a mágoa que nos deixa tão debilitados?”. Só pode ser amor, gente. O amor puro. E no caso dela, o amor pela música.

Outra coisa que aprendi com o documentário, é que a música, quando escutada com a alma, fica em nossa cabeça guardadinha como um segredo que ninguém pode tirar da gente. Independente de onde estivermos ela pode nos tirar desse lugar e nos levar a qualquer outro. Talvez, isso tenha acontecido com a Alice enquanto ela estava no campo. E sua inspiração pela música acabou inspirando seu filho também, que seguiu carreira na música, mas morreu antes dela.

E o mais incrível, é ver e sentir nos olhos e nas palavras soltas por ela no documentário, que apesar de tudo o que viveu, ela estava grata. Segundo Alice, ela não teria se sentido completa se não tivesse passado por tudo o que passou. Por isso, que possamos nos inspirar mais com a música, apreciando cada momento que vivenciamos, a fim de adquirirmos essa sapiência. Com certeza, a música alivia e conforta a alma diante de sofrimentos e situações delicadas que a vida sempre nos apresenta, como disse ela antes:

Haverá sempre uma beleza, basta saber pra onde olhar!