Lineker: Diferente do que você está acostumadx

Lineker é mineiro, natural da pequena cidade de Babuí, me deparei com seu trabalho por meio da sensação que  na época era o seu colega de profissão, Liniker. Essa semelhança entre os nomes e as comparações também foram temas de nossa entrevista “Na verdade elas nunca chegam até mim. Se as pessoas comparam isso fica restrito a contextos com os quais não tenho contato. […]”, diz ele.

Não se deixe levar pelo o que você aparentemente enxerga nele. Lineker é algo bem maior e profundo que a sua demasiada afirmação sobre o mesmo te leva a crer.

Com suas músicas, vídeos e performances sem limites artísticos, sem o medo de ser feliz no que faz, ele vem conquistando espaço em um cenário que cada dia mais ganha notoriedade.

Nós o entrevistamos e falamos de tudo um pouquinho, confira:
MI – Como foi seu início de carreira? Quando você notou que não haviam outros caminhos, se não a arte, se não se entregar integralmente a seu talento?

Lineker – Desde que me entendo por gente eu sou cantor. Cresci cantando na igreja, escola, e sabendo que era isso e mais algumas coisas que eu queria fazer da minha vida. Como minha família sempre me apoiou, acabou ficando sério, e cá estou eu hoje.

MI – Como você vê a militância de alguns artistas (LGBT’s) e a omissão de outros, quanto a luta por direitos da causa?

Lineker – Acho que a militância é muito importante, pois aqui no Brasil o posicionamento da classe artística tem um impacto muito forte sobre a opinião das pessoas. Temos esse poder de influenciar as pessoas, e admiro quem faz isso de forma consciente, independente de ser LGBT ou não. Quanto a quem se omite, acredito que cada um tenha seu processo. A saída do armário é um processo que para alguns pode ser muito doloroso, apesar de eu acreditar que não sair seja ainda pior.

MI – Ainda a respeito da causa LGBT, você concorda que não temos espaço na tv aberta hoje em dia?

Lineker – Eu não assisto TV aberta hoje em dia, então não posso falar. Na época que eu assistia, há uns 10 anos, não existia representatividade. Mas não vejo o menor sentido em lutarmos por espaço na TV aberta, que já está com seus dias contados. Vamos focar nas novas plataformas, que é pra onde todo mundo vai acabar indo daqui a um tempo!

MI – Hoje há uma corrente forte na mídia sobre o que chamam de “quebra de padrões de gênero”, muito se diz sobre. O que você acha disso? Esse movimento realmente existe? Pra você, o que seria quebrar esses padrões?

Lineker – Minha resposta é paradoxal, da mesma forma que eu vejo esse movimento. Eu acho curioso esse interesse da mídia nessa questão. Ao mesmo tempo que essa pauta fortalece e dá visibilidade a questões muito importantes, tende a criar novos padrões e chapar tudo. Eu tenho alguns pés atrás com tudo que vira slogan, com tudo que vira “moda” e produto, tipo “seja você e compre nossa marca”. Tendo sempre a duvidar das reais intenções do mercado. Mas é importante que exista esse espaço, que essas questões sejam discutidas em todas esferas. No âmbito da música, vivemos uma cena bastante efervescente, em que alguns artistas tem se posicionado mais diretamente sobre essas questões. Admiro esses artistas, e acho que talvez exista sim um movimento se consolidando, algo que talvez daqui há uns anos possa ser lembrado com um período da música brasileira. Não que seja algo inédito, visto que muitos outros artistas vieram antes de nós com questões parecidas. Mas sinto que nesse momento existe uma abertura maior em se falar disso, e uma espécie de rede, ainda que involuntária, na qual os trabalhos se fortalecem uns aos outros. Acho que quebrar padrões de gênero tem a ver com subverter algumas lógicas, algo que vai muito além de usar roupas lidas como masculinas ou femininas. Tem a ver com questionar hierarquias, normas, padrões, mas não para criar novos modelos. É um processo traiçoeiro também, com grande tendência a ficar em uma representação da desconstrução, quando, de fato, nem houve desconstrução. Talvez seja um estado de transformação constante, sem verdades, sem pontos fixos.

MI – O que você espera que sua música inspire nas pessoas?

Lineker – Eu não espero inspirar nada. Eu não penso nisso. Eu faço o meu trabalho, e faço da forma mais verdadeira possível, e da melhor forma possível, com carinho e respeito ao público que me escuta. Mas sou apenas um canal. Um cana pelo qual as pessoas podem se conectar a questões de suas vidas, de suas existências.

MI – E quanto as comparações com o Liniker, imagino que não te incomode, mas já incomodou? Como você lida quando confundem vocês por conta do nome?

Lineker – Na verdade elas nunca chegam até mim. Se as pessoas comparam isso fica restrito a contextos com os quais não tenho contato. Eu acho que nossos trabalhos são muito distintos para serem comparados, do ponto de vista musical e artístico. O que nos aproxima é o nome e essas tão faladas “questões de gênero”, e mesmo assim de forma bem diferente. Então se eu não fosse eu, eu não gastaria tempo fazendo comparações. Já as confusões são mais complicadas do ponto de vista de produção e divulgação, pois desde que Liniker se lançou passamos a ter de lidar com algumas questões com as quais não tínhamos nos deparado desde que lancei meu primeiro disco, em 2012. Hoje tentamos ao máximo em nossas divulgações deixar claro quem é quem, para reduzir as confusões, que ainda vão acontecer muito. Tenho grande respeito e admiração pelo trabalho de Liniker, e tanto eu quanto elx tentamos sempre transformar essas confusões em coisas boas.

Lineker & Liniker
Lineker e Liniker em um encontro promovido pelo portal El País.

MI – Um show que você fez e se tornou inesquecível?

Tem vários, mas vou citar o show que fiz esse ano com a Simone Mazzer e a Cida Moreira. Cantar “Geni e o Zepelim” com a Cida é algo que vou me lembrar pro resto da vida!

Lineker – Quais artistas e músicas não saem de sua playlist atualmente?

Björk, Dirty Projectors, Tune-Yards e Adult Jazz.

MI – Há artistas brasileiros com os quais você gostaria de colaborar? Quem são eles?

LinekerAs Bahias e a Cozinha Mineira, Iara Rennó, Juliana Perdigão, Ava Rocha, Mônica Salmaso, Milton e Caetano. Me chama que eu vô! (Risos)

MI – O que inspira o Lineker?

Lineker – A possibilidade de mudança.

MI – O tema desse mês no nosso site é “um novo Brasil”, sendo assim gostaríamos de saber: o que você espera do nosso país?

Lineker – Nunca fui de separar as pessoas em boas ou más, mas nesse caso espero que as pessoas boas, as que carregam um sentido de coletividade, de cooperação e de igualdade tenham forças para resistir a essa onda retrógrada e conservadora que estamos vivendo.

A propósito: Seu atual trabalho é o EP Verão que foi lançado esse ano e está disponível para download gratuito em seu site oficial!

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