Chico Buarque de Hollanda!

Ouvir o Chico Buarque para mim é viver uma coisa que eu não vivi. Seu primeiro disco – que ganhou inúmeros memes na rede social – foi lançado em 1966, e escutá-lo hoje é mergulhar numa nostalgia estranha de tão gostosa.

Ele é um dos nossos mais históricos cantores, e tão clássico que eu costumo recomendar para quem quer aprender o português bem falado, vivido, sentido… Tão sentido que não há classe e/ou gênero que não consiga se sentir representado pelo Buarque.

100_8984Chico Buarque de Hollanda foi inspirado pela bossa de João Gilberto, também pelo Jorge Ben e até pela literatura de Guimarães Rosa. Essa mistura caiu bem, viu? Ah Chico, que disco gostoso! Nele, encontramos as primeiras obras primas do carioca.

“Estava à toa na vida, o meu amor me chamou pra ver a banda passar cantando coisas de amor…”.

A música que abre o disco foi tão bem sucedida, que rendeu ao Chico um programa de TV ao lado de Nara Leão, além de ter entoado seu primeiro embate com a ditadura militar, isso porque a música teria sido usada para a campanha de alistamento militar na época, o que causou desconforto no Chico, que conseguiu impedir que ela continuasse sendo usada na mesma.

Seu belo par de olhos azuis escondiam um grande lutador pelos direitos dos cidadãos, e com isso o Chico nunca brincou. Sempre deixou claro sua posição esquerdista diante de situações fundamentais dentro da história político-social brasileira.

Outra faixa desse disco que trouxe uma verdade entrelaçada nas rimas nada estúpidas do cantor foi Pedro Pedreiro:

 

No mais, ele deixou bastante claro que chegaria à música popular brasileira para oferecer o que todos estavam esperando. E quando digo todos, me refiro a todo o tipo de público mesmo. As mulheres eram as mais agraciadas, pois não só tiveram a oportunidade de admirar a beleza do carioca, como passaram a escutar em suas músicas um homem falar tão bem delas, do que elas sentiam, do que elas precisavam e até o que pensavam de forma precisa e agradável.

E sobre tudo isso, ele fala em seu site oficial:

tumblr_m85ejwmRGe1qkp2xyo1_1280“O samba chega à gente por caminhos longos e estranhos, sem maiores explicações. A música talvez já estivesse nos balões de junho, no canto da lavadeira, no futebol de rua…
É preciso confessar que a experiência com a música de “Morte e vida Severina”, devo muito do que aí está. Aquele trabalho garantiu-me que melodia e letra devem e podem formar um só corpo. Assim foi que, procurei frear o orgulho das melodias, casando-as, por exemplo, ao fraseado e repetição de “Pedro pedreiro”, saudosismo e expectativa de “Olê, olá”, angústia e ironia de “Ela e sua janela”, alegria e ingenuidade de “A banda” etc. Por outro lado a experiência em partes musicais (sem letra) para teatro e cinema, provou-me a importância do estudo e da pesquisa musical, nunca como ostentação e afastamento do “popular”, mas sim como contribuição ao mesmo.
Quanto à gravação em si, muito se deve à dedicação e talento do Toquinho, violonista e amigo de primeira. Franco e Vergueiro foram palpiteiros oportunos, Mané Berimbau com seus braços urgentes foi um produtor eficiente, enquanto que Mug assistiu a tudo com santa seriedade. Enfim, cabe salientar a importância do limão galego para a voz rouca de cigarros, preocupações e gols do Fluminense (só parei de chupar limão para tirar fotografias.”

É um trabalho impecável, poucos artistas conseguem ter uma obra invejada como a de Chico, e pouquíssimos conseguem ter um disco de estreia tão bem pensado, escrito, ritmado e produzido. Bravo, Chico! Sentimos sua falta nesse momento crítico ao qual estamos passando no Brasil, e sem grandes representantes musicais que consigam musicar a voz do povo brasileiro como você faz. Nos resta esperar que eles possam ter acesso e interesse aos seus discos, e se inspirem! Obrigado!

 

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