Demi Lovato e o preço que se paga por ser quem é

Sejamos verdadeiros, sinceros e vamos admitir uma coisinha: ninguém gosta de ser criticado, por mais branda que seja, ninguém aceita uma crítica “na boa”. E não tem essa de “crítica construtiva”, por mais que no fim das contas, a crítica esteja correta ao alertar algo, obviamente, cada caso é um caso.

Isso se estende até as coisas e pessoas que gostamos. Embaçados em argumentos diversos, críticas são destiladas aos montes, mas as reações nem sempre são boas, na grande maioria, péssimas. Sabemos bem disso, afinal faz parte do nosso trabalho aqui também, criticar discos, músicas e afins.

As pessoas não aceitam ser contrariadas e tão pouco entendem e aceitam verdades quando são ditas, elas (nós, vamos ser verdadeiros) estranham quando as pessoas falam o que bem entendem ou pensam.

É assim que podemos explicar, de alguma forma, o que se passa atualmente na vida pessoal e profissional de Demi Lovato.

Demi é um (um dos na verdade) exemplo de como a má administração da fama (se é como podemos dizer) pode quase destruir uma vida. Em 2010 ela foi internada em uma clínica de reabilitação por seu problemas com drogas, bipolaridade e distúrbios alimentares. Saiu, tinha se recuperado e usou desde então dessa experiência pra alertar outras pessoas.

Defende desde então a aceitação de si mesma, mesmo que pra isso a própria tenha também passado por uma grande repaginada – ok, talvez uma há aí uma contradição. A verdade é que Demi Lovato passou por maus bocados, deu a volta por cima e se tornou quem é hoje.

Ano passado ela meio que se tornou outra, mais magra, se valorizando mais, cantando letras mais ousadas, sexy como nunca, enfim, se sentindo mais confiante. Mas a internet nunca a perdoou. Do que? Não sabemos dizer.

Ela é sincera ela.

Com o contato direto com o público, o artista, a celebridade, está exposta a tudo, desde o carinho dos fãs à falta de amor próprio, ou a falta do que fazer mesmo, dos haters, passando até pela parcela de fãs infantis que não enxergam defeito algum em seus ídolos.

Mas Demi Lovato cometeu um crime perante essa vitrine de corpos e mentes que é a internet: ela criticou, ela foi sincera.

Quando disse, sinceramente, que preferia Ariana Grande Mariah Carey, foi massacrada pelos fãs da veterana pela internet, bom, vai ver somos obrigados, o mundo todo, a preferir o contrário, vai entender. Quando ela e sua mãe tirou sarro do surto de zika vírus no Brasil, na época das olimpíadas, a mesma coisa – ok, aqui não teve como defendê-la, a declaramos culpada.

Semana passada um fã a desenhou em um corpo de sereia, tudo lindo, tudo ótimo, até a própria ver o desenho e dizer “Está lindo, mas esse não é meu corpo. É assim que meus peitos deveriam ser?”, mais uma vez foi xingada e tudo mais, mesmo que, engajada com essas questões de aceitação de si mesma que é, só questionou o artista sobre o que ele pensa de seu corpo. Outra pessoa, mais madura digamos, responderia de uma forma adulta, outras pessoas igualmente maduras, debateriam a idealização do corpo feminino pelos homens, poderia ser simples assim.

Essa semana a ‘gota d’água’: em uma entrevista criticou o empoderamento feminino levantado por Taylor Swift, dizendo que criticar Katy Perry usando a canção Bad Blood, não é correto – a própria Katy Perry já criticou a música, a internet toda já entrou em polvorosa pelo mesmo motivo, mas ok, estava tudo bem. Na mesma entrevista criticou aquele ‘esquadrão’ da Taylor, em suas palavras ela diz “As pessoas vão me criticar por isso, mas não vejo corpos normais naquele grupo. Parece uma imagem falsa e distorcida da realidade que as pessoas deveriam ter. Acho que ter uma música e vídeo sobre tentar derrubar a Katy Perry não é empoderamento feminino”.

Sejamos verdadeiros, novamente, ela não mentiu.

Nada disso tira ou diminui o que Taylor representa na indústria, o que ela já fez e todos os seus méritos, mas a crítica é válida, e como disse lá no começo, ninguém aceita cítica na boa.

Acabou que mais uma vez a internet não a perdoou, as críticas (leia-se ofensas) foram duras. Então Demi Lovato anunciou em seguida uma pausa em sua carreira, não lançará coisas novas até 2018.

Se utilizando das críticas (ataques, né?) disse quando perguntada sobre um novo disco: “não vai vender mesmo”.

Pausas na carreira são comuns e sempre necessárias, o artista, o humano que tá ali pra muita coisa, inclusive agradar seu gosto por música, precisa descansar, reavaliar seus passos, sua imagem. Com Demi Lovato não é diferente.

Mas o que se diz sobre é: Demi Lovato está pagando um preço alto por simplesmente falar o que pensa. Ninguém é obrigado a baixar a cabeça e aplaudir tudo, achar todos lindos e ainda gostar de tudo que está sendo vendido. Mas parece que o público quer obrigar, sim, artistas e celebridades a gostar uns dos outros.

Outro ponto importante a ser levantado: quando um homem vai a público criticar e até dizer coisas horríveis, não há a mesma coisa – ninguém (desse mesmo grupo que desceu sua raiva em cima de Demi Lovato) quis boicotar Chris Brown quando o mesmo foi homofóbico (e não se desculpou) com o Frank Ocean.

No mais, descanse Demi Lovato, força aí e que você une bastante energia e inspiração para novos trabalhos o mais breve possível.