A depressão e a música, precisamos falar!

Tem um assunto de saúde pública ganhando cada vez mais espaço e sendo discutido de forma mais aberta: a depressão. Uma triste realidade que vem atingindo mais e mais as pessoas e o número de jovens diagnosticado com ansiedade, depressão e outros distúrbios da mente só vem aumentando.

Além desse ser um artigo de como o mercado da música tem dado voz a esses transtornos, é também um texto bastante pessoal. Há quase dois anos fui diagnosticado com depressão, mas os sintomas, os sentimentos já me acompanhavam à muito tempo. O acúmulo de autocobrança, de querer superar os meus limites, a pressão externa, foram fatores determinantes para que eu chegasse ao meu extremo e começasse a ter crises de pânico e de ansiedade.

Há cerca de duas semanas o rapper inglês Stormzy, que recentemente lançou o seu primeiro e aclamado álbum, concedeu uma entrevista à TV inglesa e falou sobre sua experiência com a depressão durante o processo de produção do disco. Pegou muita gente de surpresa, pois como um cara de 23 anos, no auge da sua carreira e da sua efervescência criativa poderia estar lidando com transtornos da mente? Agora vamos inverter a pergunta: imaginem só o que Stormzy passou, saindo de um bairro pobre de Londres, negro, enfrentando uma infinidade de questionamentos e colocando a arte como forma de sobrevivência? Imaginem a pressão dele em si próprio e de toda a sociedade para que ele pudesse fazer acontecer, para que pudesse “dar certo”. Todos sabemos que o acúmulo do futuro em nossas mentes traz a ansiedade. E com a pressão do passado misturada então, uma perfeita combinação para que a gente mesmo não consiga mais se reconhecer.

Quem passa pela depressão não está ali porque quer. Não é um interruptor que você liga e desliga. Os sentimentos, as sensações ruins, os pensamentos negativados surgem do nada, às vezes em momentos em que você jamais associaria à doença. Sim amigos. Depressão é uma doença. Há tratamento, por mais difícil que possa parecer para os seus pacientes. Nós, vítimas da depressão, muitas vezes deixamos de acreditar que há luz no fim do túnel. A gente se sente impotente, frustrado, vitimado. Nada parece mais dar certo.

O próprio Stormzy levantou a questão de que como isso poderia estar acontecendo com ele. Ele sempre se viu como um cara forte, intenso, empoderado. A depressão não escolhe. Não tem cara. Ela vem quando a gente menos espera. Está bem diante da gente, todos os dias. Só olhar ao redor e ver o ambiente propício que toda nossa sociedade criou para que isso pudesse acontecer. Somos famintos por informação, por nos mantermos atualizados constantemente e intensamente. Nos expomos como nunca fizemos, o que aumenta a sensação de inferioridade quando nos comparamos com outras pessoas. Nas redes sociais então, imaginem em quantas vezes isso é potencializado.

Falar. Falar sobre o que está acontecendo é uma grande ajuda no processo de cura. É doloroso, mas é necessário. Precisamos falar, colocar as nossas angústias pra fora. Mas falar, falar mesmo, literalmente. Quando a gente se ouve, em voz alta, muitas vezes as coisas parecem ser mais fáceis do que realmente são. Claro que passa na nossa cabeça que abrir o jogo sobre o assunto vai nos deixar ainda mais vulneráveis, mostrar ainda mais as nossas fraquezas. Mas isso pode ser só coisa que tá dentro da gente.  Com quem você realmente pode contar? Alguém da sua família ou um amigo? Se não se sente a vontade, façamos novos amigos, frequentemos um centro de ajuda. A gente não tá sozinho. Você não é a primeira pessoa a passar por isso e, infelizmente, nem a última.

A publicação musical inglesa NME trouxe em sua edição desta semana, lançada nesta sexta-feira (17), a depressão na capa, estampada pelo Stormzy. O climão foi feito! O rapper acusa a revista de usar sua imagem na capa sem autorização e a encrenca está escancarada no twitter tanto do cantor, quanto da publicação. Mas enfim….na interessante matéria publicada diversos nomes falam sobre suas próprias experiências com a depressão. Dan Smith, vocalista do Bastille, fala sobre a ansiedade angustiante que lhe toma conta antes de suas apresentações. Pode parecer ridículo, mas não é. Muita e muita gente tem problemas sérios em se apresentar, falar diante do público, travam, passam mal. O frontman da banda Mallory Knox Mikey Chapman levantou um ponto, na matéria, que só quem está vivendo a experiência da depressão sabe e entende. Ele diz que “ninguém fala para alguém que está com a perna quebrada, vamos lá, levante!”. A gente não tá acostumado com nada que não seja físico. Doenças mentais são subjetivas, estão apenas dentro daquele que convive com elas, então quem está de fora acha que aquilo é uma bobagem, que não faz sentido algum. Estão completamente e imensamente enganadas.

Dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde, no mês passado, aponta que o Brasil é o país com maior número de casos de depressão na América Latina. São mais de 11 milhões de casos. Nas Américas só estamos atrás dos Estados Unidos que registram um pouco mais de 17 milhões de diagnósticos. O mesmo relatório aponta que são mais de 322 milhões de casos em todo o mundo e que o avanço da doença nos últimos dez anos cresceu alarmantes 18,4%. E cada vez mais jovens são diagnosticados. Na Inglaterra, por exemplo, um levantamento da ONG Young Minds aponta que são mais de 850 mil casos de depressão e ansiedade em crianças e adolescentes! 850 MIL!!!!!

Falar sobre a doença não é uma fórmula mágica que vai resolver o problema, precisa ir com calma. Eu mesmo tenho imensa dificuldade para tal. É um processo de autoconhecimento, de auto-respeito, da gente buscar entender o que tá acontecendo com a gente. Não é nada fácil. E se você que está lendo não está com depressão, o que eu posso te dizer é: tenha muita, mas muita paciência com quem tem. Nossos ídolos também passam por isso. Na mesma matéria para a NME, a vocalista do Garbage Shirley Manson deu uma declaração que faz todo sentido. “O que a gente esqueceu é que é difícil para as pessoas falarem. Elas carregam com si muita vergonha, timidez, inibição. Elas não estão acostumadas a terem suas vozes ouvidas. É fácil dizer, “vamos lá, fale!”, mas é completamente intimidador para as pessoas falarem o que elas querem, o que as assustam, o que suas mentes estão pensando. A gente precisa dar tempo e espaço”.  É isso! Não é da noite pro dia. De novo, não é um interruptor que acende e desliga e tudo se resolve.

Todo mundo é vulnerável. Não importa o quão rico você seja ou quão famoso. Nossos músicos favoritos muitas vezes canalizam suas angústias em canções. Tem um outro fator que é bastante agravante: o machismo. Sim! Há muito ainda o que se aprender, pois o machismo ainda transmite a falsa ideia de que homem que é homem não passa por isso. Imensa ignorância. Números estão aí justamente para deixar a gente de queixo caído. Na Inglaterra, o suicídio em decorrência da depressão é a MAIOR causa de morte de jovens homens entre 20 e 45 anos! A MAIOR!!!! Não é câncer e nenhuma outra doença! Isso é explicado pela dificuldade dos homens em se abrirem, de conversar, de manifestar seus sentimentos e transtornos.

A música é e sempre vai ser uma grande aliada em diversos tratamentos. Recentemente contamos aqui no site o impacto que ela tem no tratamento de doenças como Alzheimer e demência. E já foi comprovado através de inúmeros estudos, como um divulgado pelo The British Journal of Psychiatry ao analisar a influência benéfica que as canções, as combinações de melodias, de sons, de ritmos podem fazer com nosso cérebro. E os resultados pesquisa após pesquisa tem sido cada vez mais animadores.

Importante é falar. Dar voz. A depressão é uma doença como outra qualquer e precisa ser falada, estudada. Não podemos deixar o preconceito nos tomar conta e fingir que isso não acontece. E é muito importante também que aqueles que a gente muitas vezes considera como inatingíveis, os nossos ídolos, venham a público e se manifestem sobre suas questões. Assim eles ajudam a dar voz e fazer com as pessoas que passam por isso também se sentirem a vontade de falar, de colocar o assunto na pauta das discussões diárias.

Vamos em frente, porque a luta é longa!


 

Extra: Na década passada, a BBC fez uma enquete nacional para descobrir quais as melhores canções que nos ajudam a nos livrar de uma deprê, que nos ajudam a evitar pensamentos ruins e mesmo aquelas que, mesmo que nos ajudem a enfiar o pé na lama, nos fazem sentirmos melhores depois de ouvi-las. Ouça aqui esse TOP 10 maravilhoso!

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