Até quando o funk será marginalizado?

O funk é sempre polêmico e rende assunto pra linhas e linhas de debates que parecem nunca chegar ao fim. O debate reacende essa semana, depois que uma proposta – um tanto quanto arbitrária – foi enviada ao Senado Federal com a intenção de tornar o funk um crime. Isso mesmo, enquanto expressão cultural, o funk está a caminhos de se tornar um crime.

Primeiro devemos explicar: o site do Senado brasileiro abre a oportunidade para que cidadãos comuns, como eu e você, exponha ideias de leis, sejam elas quais for, e se o caso dessa ideia – por mais absurda ou necessária – atinja 20 mil assinaturas de apoio em menos de 4 meses, o projeto, ou ideia, é enviado à relatoria que “pode dar andamento ou não” – como informa o UOL.

Ainda segundo o portal, há senadores que já se recusaram a aceitar o projeto e acredita que, devido as atuais crises e empecilhos no atual parlamento brasileiro, será difícil que algum senador aceite e dê seguimento a ideia polêmica – absurda na verdade.

O antropólogo britânico Edward Burnett Tylor é considerado o pai do “conceito moderno de cultura”, ou seja, Edward estudou a fundo e ajudou a definir o que seria cultura para o homem daquela época, mesmo que séculos tenha se passado desde então – ele chegava a definições ainda em 1871 – e ideias sobre culturas foram surgindo e sendo sobrepostas as outras, suas definições originais ainda permanecem atuais e nos orientam quando decidimos falar de cultura. Segundo o antropólogo, cultura poderia se resumir em “todo aquele complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade”. Ou seja, basicamente, cultura não é definida por mim, nem por você que lê esse texto e nem por ninguém em específico, mas sim por um conjunto de fatores e sua importância histórica na vida de determinados indivíduos, determinadas regiões.

A ideia lá exposta no site do senado e suas mais de 20 mil assinaturas, expõe, digamos, um extinto preconceituoso, afinal o funk é entoado e foi criado nas regiões periféricas de nosso país – que não são poucas. É saliente lembrar que uma boa parte dessas pessoas que apoiam a ideia já “ralaram a bunda no chão” em uma balada qualquer, quando aquele funk que é sensação atual é tocado pelo DJ da festa. Nessas horas o funk não é crime, é diversão.

Segundo o argumento do autor do projeto, “São somente [o funk] um recrutamento organizado nas redes sociais por e para atender criminosos, estupradores e pedófilos a prática de crime contra a criança e o adolescente, venda e consumo de álcool e drogas, agenciamento, orgia, exploração sexual, estupro e sexo grupal”.

A gente tem que salientar: machistas, pedófilos e criminosos no geral, não existem só no meio do funk. Quantas letras de músicas sertanejas não são machistas? Pedófilo é só aquele que ouve funk? E mais, os maiores criminosos do nosso país não frequentam bailes funk! E quanto a orgias e sexo grupal, bem, tem quem goste e muito que raramente eles não ouvem um funk pra se inspirar.

É bem provável que, quando alguém entra na página do Senado na hora de assinar um projeto como esse, lembra das algazarras causadas pelos ‘rolezinhos’ e até aquelas pancadões rolando na rua de casa. É incomodo, sim! Mas nesses casos já há leis que defendem o cidadão dessas ocorrências e nesse âmbito, deveriam ser cobradas atitudes e ações do poder público. Quanto ao machismo, a objetificação da mulher e apologia à pedofilia – sim, as novinhas citadas em algumas músicas ainda são menores de idade – são casos isolados e devem sim ser combatidos, mais especificamente essas canções e os compositores da mesma.

Criminalizar um movimento cultural é coisa de uma sociedade cheia de represálias vivendo em um sistema autoritário, características de uma sociedade retrógrada e caminhando a uma falência moral.

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