Morre Luiz Melodia, e a gente agradece

Acabamos de perder um dos nossos maiores artistas, Luiz Melodia.

E venho através desse post prestar minha homenagem a um dos discos que marcaram a minha vida inteira. Falo do Pérola Negra, um disco de 1973 mas que continua tão atual quanto nossos melhores discos nacionais atuais.

Lembro-me de sentar em casa com meus rabiscos quando criança e escutá-lo ao lado de meu pai, enquanto ele bebia um álcool qualquer. O disco me é tão nostálgico que eu nem sei explicar o motivo exato, e não preciso.

Luiz Melodia foi um artista inspirador. Começou sua carreira aos 22 anos, negro, da zona norte carioca. Ele conseguiu fazer uma bela mistura em seu primeiro álbum. Foi do rock ao chorinho de forma classuda. Dando som às suas crônicas urbanas e poesias que representavam o que vivia naquela época.

E ele atribui o sucesso à sorte que teve:

“Tive a felicidade de estar na hora e no local certos quando uma mulher que virou minha amiga, a Rose, foi morar no morro. Ela conhecia muito os baianos, Caetano, Waly Salomão, Gal, todos eles. “

Foi ela quem apresentou ele ao grandes artistas daquela época, e Luiz Melodia passou a cantar e encantar. Logo, a faixa que deu nome ao disco, Pérola Negra (originalmente chamada de My Black, Meu Negro), chegou aos ouvidos da incrível Gal Costa, que se apaixonou e a incluiu em seu disco. O que ele não soube, é que eu também sou apaixonado por essa música.

 

Luiz saiu do morro, e após o sucesso da faixa cantada pela Gal, passou a figurar entre os melhores na zona sul carioca. Quando entrou no estúdio, ele já tinha as dez faixas do primeiro álbum prontas – todas inspiradas pelo amor que sentia por uma mulher mais velha.

E a gente nem precisa viajar muito pra saber que nem tudo foi tão fácil assim, né? Afinal, o cara era negro, sofria o preconceito também, estava na mídia num período de censura, e sofreu as pressões do mercado fonográfico também.

“O lance fonográfico era barra. Se pudessem, eles te usavam de maneira que você não mostrava sua arte. Queriam só números, e eu não estava viajando naquela onda. quando viram que eu não ia gravar um novo disco, até porque eu não estava a fim, começou um choque com a gravadora, eu virei o cara difícil. saí da philips e já tinha as más línguas dizendo para não assinar contrato comigo. fiquei anos sem gravar. se eu abrisse mão e começasse a gravar um disco atrás do outro, não estaria no cenário musical como estou até hoje.”

Hoje, após a notícia da sua morte em decorrência de complicações de um câncer que atacou a medula óssea, o senti. Se ele tivesse gravado somente o primeiro disco, estaria marcado em minha vida, assim mesmo, sendo a pérola negra da música brasileira. Para mim, ele estará sempre por aqui.

Obrigado, Luiz. Que você descanse em paz.

 

 

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