Xenia França e sua estreia maravilhosa em carreira solo

Xenia França Album

Desde que conferi, pela primeira vez, o show da Xenia França, na semana passada, no importantissimo palco do Auditorio Ibirapuera, em São Paulo, fiquei pensando em como começar a escrever este texto. E decidi iniciar com um desabafo, um mea culpa.

Fiquei extremamente irritado e frustrado comigo mesmo. Xenia acaba de lançar o seu primeiro álbum solo – autointitulado – , mas e antes?! Xenia ja tinha uma carreira com o grupo Aláfia e eu confesso que não os conhecia. Por isso a frustração: Xenia é daquelas que não passa despercebida e por que raios eu nunca tinha ouvido falar?!

Xenia França – tudo na hora certa! 

Xenia apareceu na minha vida de forma bastante inesperada, mas ao mesmo tempo de um jeito bastante comum nos dias de hoje: através de indicação dos algoritmos do Spotify, como uma sugestão de álbum novo de que eu deveria ouvir e poderia curtir. Assim foi.

A primeira audição foi bem assim: OMG, quem é essa mulher?! Quero ser amigo dela, quero falar com ela! É muita energia, musicalidade e ancestralidade explodindo nos poros. Quem é ela? Quem é?

Alguns dias depois vi o anúncio do seu show. Aí a euforia já tomou conta e eu PRECISAVA conferir aquilo ao vivo e a cores. Continuei a ouvir o álbum loucamente e me preparar para aquela experiência de vê-la no palco. E a constatação chegou: tudo acontece na hora certa, inclusive dar de frente com a obra de Xenia França.

XENIA – O Álbum

Infelizmente a cultura no nosso país continua correndo à margem da sociedade. Uma nação que não valoriza sua própria cultura, aquilo que mais representa o seu povo não tem como seguir em frente. Se não há respeito com o que é de mais básico, vai ter respeito pelo que?

O que falar ainda dos ataques incansáveis e por uma tentativa de censura em diversas frentes da nossa arte? Indignação, frustração. E é também um pouco engasgada que Xenia França lançou o seu disco Xenia, o primeiro álbum solo da sua carreira.

 

Com tantas mazelas na nossa indústria cultural, o disco de Xenia nasceu a partir do financiamento de um edital com a Natura, uma das empresas que mais tem investido em arte, principalmente em música no nosso país nos últimos anos. E ainda bem que há instituições como essa que, de alguma forma, ajuda a apresentar novos artistas, fazer sonhos sairem do papel e ganhar as ruas, os nossos ouvidos.

“Música preta sou teu instrumento, vim pra te servir” Xenia, em Preta Yayá 

Ouvir o álbum da Xenia é sentir também um pouco da sua dor, das suas amarguras, mas também fazer parte da alegria de ter conquistado o seu espaço e estar onde está. Ela trata de temas como preconceito, ancestralidade, apropriação cultural, raízes, violência… é um álbum para ser ouvido, mas também refletido.

Uma das faixas mais aclamadas do álbum é a música Breu, que encerra o disco. A canção foi lançada em meados de 2016 e na época a cantora deu uma entrevista ao site Noisey explicando sobre a importância desta emocionante narrativa:

A música surgiu depois do assassinato da Cláudia Silva, que chocou a comunidade negra em 2014. O meu namorado, o Lucas Cirillo (que também é do Aláfia), escreveu uma poesia sobre o caso, que acabou virando a letra. Eu me conectei com ela na hora, porque se trata de questões que estão diariamente em pauta para uma mulher negra: desvalorização do nosso corpo e da violência enfrentada pelos negros.

Diferente das músicas Aláfia, que tem uma marca sonora composta por muitos elementos, “Breu” é bem minimalista. Isso acontece principalmente porque o texto é a parte mais importante da música. A voz é o que conduz o som. Tem uma base eletrônica, uns arranjos muito sucintos de piano e acaba desaguando num toque de candomblé para o orixá Nanã, que é o orixá da morte.

Então, essa música está falando de dois tipos de morte: a literal mesmo, porque o corpo negro está sempre na mira da morte na sociedade brasileira; e a não-literal, que seria uma proposta para o povo negro reconstruir a sua história no Brasil, buscando um fim que não seja a morte literal, mas sim um final feliz.”

 

Breu certamente faz nossos olhos encher de lágrimas.

Certamente o álbum de Xenia é um dos melhores discos do ano e merece todo o destaque que vem recebendo. É uma poesia. Um canto de dor, de angústia que joga tanta coisa na nossa cara que, infelizmente ainda em 2017, temos que conviver e muitos preferem fingir que não acontece.

Eu tenho uma outra favorita no disco: Respeitem Meus Cabelos Brancos, de Chico César, que ganhou uma roupagem maravilhosa interpretada pela cantora. Sério. Musicão e mais uma vez um tiro certo. E a faixa que abre o disco? Pra que Me Chamas? Não poderia ter abertura melhor para o trabalho, inclusive é com essa que Xenia chega ao palco para despejar sua musicalidade que corre nas veias.

Que tal ouvir o disco?

Dona do Palco

Pisar no palco do Auditorio Ibirapuera é um feito e tanto para qualquer artista. O local é um dos mais prestigiados e respeitados do país e Xenia França fez sua estreia, em carreira solo, numa apresentação repleta de acertos.

O palco é imenso. Alguns artistas não se dão conta da proporção física mesmo do espaço e ficam extremamente apequenados. Com a cantora foi exatamente o contrário. Sua presença em si é um acontecimento tão intenso que não sobra espaço algum para o vazio. Falta espaço para tanto talento, isso sim.

Xenia França
Xenia França – Auditório Ibirapuera – 15/10/2017 – foto: Divulgação Facebook Xenia França

Com um figurino magnífico, desenhado pelo também talentoso Gustavo Silvestre (recomendo super a pesquisa sobre esse nome), Xenia comanda o espetáculo e acompanhada de uma banda bastante competente, ela mostra que é a dona do pedaço.

No repertório todas as faixas do seu disco. TODAS. Nenhum espaço para algum outro momento da sua carreira, a não ser uma linda performance, a capella, de um clássico da nossa música brasileira: Eu Vim da Bahia, de Gilberto Gil, que já foi interpretada também por nomes como Gal Costa e João Gilberto. E Xenia faz nosso queixo cair: é linda, intimista, uma performance realmente emocionante, sentada ao chão, entregue ao público.

Na plateia fãs, amigos, familiares e, claro, sua mãe, fonte de tanta inspiração que foi ovacionada e, mais uma vez, homenageada pela filha. Emocionante para ela, para mãe e, por tudo que foi apresentado, todos os demais também estavam. Foi lindo. Uma estreia que aponta para uma vida longa!


p.s. Escrevemos Xenia França, sem acento, em nosso texto pois seguimos como está nos créditos do próprio disco. Seguimos essa orientação mesmo que, por diversas vezes em textos e outros artigos pela internet o nome da cantora esteja grafado com acento. O que importa é que com acento ou sem, o empoderamento dessa mulher é o que lacra! 


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