Mel B escancara, em livro, o abuso e a violência doméstica

Mel B Brutally Honest Violência Doméstica

Até quando vamos ter que falar de violência doméstica? Dói acreditar que, em pleno terceiro milênio, temos que nos deparar quase que diariamente com notícias e mais notícias de mulheres sendo vítimas de agressões físicas e verbais.

Quanto vale a palavra de uma mulher? Quanto vale a voz de mais de quinhentas? Enquanto o mundo acompanha ainda perplexo os desdobramentos do escândalo que envolve o médium João de Deus, acusado por centenas de mulheres de assédio sexual, há ainda aqueles que colocam em dúvida seus testemunhos, como se fosse natural e tranquilo para uma mulher – ou quem quer que fosse – se expor e remoer uma experiência traumática como o abuso.

O que mais envergonha é que os casos de abuso sexual são intermináveis. E se a gente estender o abuso sexual para casos de relacionamentos abusivos e violência doméstica? É apoiado na fraqueza da vítima, na condição de inferioridade delas, que seus abusadores se projetam e dominam como um felino domina sua presa.

Melanie B - Brutally Honest
Brutally Honest: sem previsão de lançamento no Brasil

O segundo livro autobiográfico da Mel B, integrante do grupo inglês Spice Girls, essencialmente fala da violência doméstica que ela sofreu ao longo dos anos no seu casamento com o produtor Stephen Belafonte. Se o título do livro é Brutally Honest, algo como Brutalmente Honesta, de fato o seu conteúdo é estarrecedor.

Relacionamentos nunca foram o forte de Mel. Sua personalidade forte e independente são características que muitos homens não conseguem lidar. Foi assim com seu primeiro marido e pai da sua filha Phoenix, Jimmy Gulzar. O livro traz ainda detalhes do rápido relacionamento entre Mel e o astro de Hollywood Eddie Murphy, com quem a cantora teve uma filha, Angel, que chegou a duvidar publicamente se seria mesmo o pai da criança – que foi comprovada posteriormente através de um exame de DNA. Mas o que rouba a cena na publicação é a história amorosa e desastrosa que teve com Stephen Belafonte.

Mel B - Violência Doméstica
Mel B e o ex-marido Stephen Belafonte

Como uma das mulheres, reconhecida como uma das mais fortes do entretenimento, grande defensora e ativista do Girl Power, poderia ter deixado ser controlada e humilhada por um homem? Mas lembre-se a culpa NUNCA, NUNCA, NUNCA é da vítima! 

Brutally Honest é daqueles livros que você lê um capítulo e vai tomar um ar. A fluência do texto, a riqueza de detalhes, faz com que cada página seja como uma facada no estômago. Melanie conta uma série de acontecimentos dos quais chegamos a duvidar de como pode ser que ela ainda esteja viva. Um deles conta a sua overdose de comprimidos – foram mais de 200 pílulas ingeridas – para combater as dores na alma causadas pelo seu relacionamento com Stephen. A dor não precisa ser só a sofrida por uma agressão física, mas também a emocional, e Melanie estava submersa numa profunda depressão. O que dizer então do fato dela “cheirar” carreiras e carreiras de cocaína diariamente enquanto era jurada de um dos programas de maior repercussão na TV britânica, para amenizar o que sentia por conta dos incansáveis abusos de Stephen?

O abusador faz o possível para induzir que você é que tem algum problema, ele acaba com sua autoestima, extrai todas as suas energias e te faz sentir um lixo. Era isso, nas palavras de Melanie, que Stephen fazia com ela. Ao longo dos anos, cada vez mais isolada, distante da família e dos amigos, Melanie vinha definhando e, enquanto mantinha o sorriso no rosto diante das câmeras, sua vida real estava em frangalhos, sendo constantemente humilhada e rebaixada dentro da própria casa.

Mel B - Brits Awards
Mel B no auge das Spice Girls, em 1997, no Brits Awards

O livro ainda narra passagens que te fazem entender um pouco da personalidade forte e extravagante de Melanie. Um dos capítulos é dedicado a história da sua família, principalmente a origem caribenha do seu lado paterno e como a escravidão, as questões raciais, a luta contra o preconceito e como tudo isso a fez uma mulher forte, determinada, com um passado do qual ela demonstra ter carinho e respeito.

Mas tem uma situação do passado que não sai da sua cabeça e que reflete no que Mel B é hoje em dia. A cantora fala como era tratada pelo seu próprio pai, com cobranças intermináveis e com julgamentos referente ao seu comportamento que fez com que ela abusasse das drogas ainda na adolescência. A relação com seu pai foi tumultuada até o seu falecimento, em 2017.

“Eu era cobrada constantemente por não ser boa o bastante na escola, por não usar as roupas “adequadas”, por não tomar o café da manhã, por dizer algo inapropriado… Eu sentia que ele estava o tempo todo enfurecido ou desapontado comigo. Não tinha ideia do que estava errado entre eu e meu pai, mas aquilo fazia eu me sentir miserável – tão miserável que eu acabei tendo uma overdose”.

Se Melanie lançou o livro com o objetivo de rentabilizar com a história ou mesmo gerar provas materiais contra o ex-marido, somente ela deve saber. Mas nada disso ilegítima a história que contou. De maneira franca, sem maquiagem, sem rodeios. Ela pegou os holofotes que apontam para ela  há mais de vinte anos e colocou luz sobre um dos assuntos mais dolorosos da nossa convivência humana. Que seu trabalho possa tocar e sensibilizar milhares de mulheres a contar, a denunciar. É hora de se libertar, de seguir a vida, de deixar pra trás as feridas – mesmo que muitas delas sejam impossíveis de apagar.

Mel B Scars
Hematomas de Melanie chamaram a atenção na final do X-Factor inglês, em 2014: Melanie conta em detalhes sobre o ocorrido em seu livro.

Sua história vem a comprovar que a violência doméstica não escolhe cor,  tampouco sua situação financeira. Que seu trabalho possa tocar e sensibilizar milhares de mulheres a contar, a denunciar. É hora de se libertar, de seguir a vida, de deixar pra trás as feridas – mesmo que muitas delas sejam impossíveis de apagar. Crime de violência doméstica precisa ser combatido, precisa ser falado. Não dá mais para suportar essa quantidade de tristes notícias. 

Por enquanto, Brutally Honest pode ser encomendado em livrarias que trabalham com importados, já que não há previsão de lançamento do material no Brasil.

DENUNCIE!

Além das delegacias da mulher espalhadas por todo o território nacional, um dos maiores aliados no combate ao crime de violência doméstica são as denúncias feitas pelo telefone da Central de Atendimento à Mulher, o 180.

Através deste telefone é possível realizar denúncias anônimas e todos os casos são encaminhados ao Ministério Público. Maus-tratos, agressões físicas, atentados contra a moral… tudo precisa e deve ser denunciado. O telefone está disponível 24 horas por dia, nos sete dias da semana.

Números da Violência contra a Mulher no Brasil

O ano mal começou e já temos visto uma série de assassinatos de mulheres, cometidos pelos seus maridos ou ex-companheiros. E os números da violência doméstica só crescem. Chega a aparentar que trata-se de um problema sem solução. Tão assustadores quanto os depoimentos de inúmeras mulheres, são os números que narram essa história.

De acordo com o 12o. Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em 2018, mais de 4.539 homicídios de mulheres foram contabilizados no Brasil em 2017, sendo que mais de 1.100 foram registrados como feminicídio. E o que falar dos casos de lesão corporal? Ainda em 2017, foram registrados 221.238 casos – que se enquadram na Lei Maria da Penha, totalizando uma média triste de mais de 600 casos POR DIA! S-E-I-S-C-E-N-T-O-S casos DIARIAMENTE! O mesmo levantamento ainda registra um aumento de quase 10% nos casos de estupro, comparando o ano de 2017 com 2016. Tá pronto para o número? Foram 60.018 casos em 2017.

Infográfico Violência Doméstica
Infográfico produzido pelo portal BOL, com dados do Fórum de Segurança Pública 2018

Os dados só perdem para o tamanho da repugnância desses crimes contra a mulher. Impressionante ainda é dizer que esses números são MUITO maiores do que podemos imaginar. Alguns estados  (ES, TO, MT, RR e DF) não informaram seus dados e o que falar daquelas tantas e tantas vozes que não denunciam, que se escondem pelo medo, pela dependência emocional e financeira?

Até quando as mulheres vão continuar sendo apenas um número nas estatísticas e o poder público vai, de fato, fazer algo?

Como Identificar um Relacionamento Abusivo

Na grande maioria das vezes, é muito difícil fazer com que a vítima compreenda que ela está em um relacionamento abusivo, mesmo que a maioria das pessoas estejam te afirmando e tentando ao máximo te fazer entender. Mas o importante é colocar luz neste assunto e tentar evitar que mais e mais mulheres sejam vítimas dessa realidade cruel.

Aqui alguns sinais que precisam ser observados:

  • O/a seu parceiro/a faz de tudo para que você se sinta incapaz, de que está sempre errado/a, que não entende de nenhum assunto?
  • Seu parceirx controla sua vida, suas escolhas?
  • Você faz coisas contra a sua vontade simplesmente por causa do medo do seu parceirx?
  • E quando ele/a diz que ninguém vai te amar da mesma maneira que ele/a?
  • Ele/a faz você se sentir culpado/a desse comportamento doentio dele/a?
  • Existem picos de nervosismo e ameaças como socos em itens de dentro de casa, quebra de utensílios e móveis?

Se algum dos sinais acima fizer parte da sua realidade, acenda a lanterna, tem algo errado aí! Precisa dar um basta e procurar por ajuda.

DENUNCIE CRIMES CONTRA A MULHER: DISQUE 180! 

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