Bohemian Rhapsody se Torna A Maior Biopic da História

Falar do Queen é abrir uma lista de adjetivos e desfilar qualidades sobre uma das maiores e melhores bandas de todos os tempos. Bohemian Rhapsody, o filme, veio nos lembrar quem foi a lenda Freddie Mercury e porque ele vai permancer nos registros como uma das figuras mais importantes do século XX.

Indicado em cinco categorias do Oscar 2019, o filme Bohemian Rhapsody, que conta a jornada do cantor Freddie Mercury e da banda Queen, já é a biopic (filme biográfico) ligado à música de maior sucesso da história. Desde que estreou nas telas de todo o mundo, em outubro passado, o filme já atingiu a marca de $854,3 milhões de dólares, em bilheteria, sendo que 3/4 desse número representa o mercado fora dos Estados Unidos e Canadá, de acordo com números divulgados nesta terça (19) pela ABS/CBN. A cifra é ainda mais impressionante quando convertemos para a nossa moeda. Com a cotação do dólar fechada em R$ 3,72, o longa atingiu a marca de R$ 3,1 bilhões em bilheteria.

Não só se tornou o filme biográfico relacionado à música de maior bilheteria de todos os tempos, mas dificilmente esse título será retirado tão logo. Straight Outta Compton, o agora segundo colocado no ranking, que conta a história de um dos mais emblemáticos grupos de rap dos Estados Unidos, o N.W.A., faturou pouco mais de $200 milhões, em todo o mundo, quando foi exibido nos cinemas em 2015. Os próximos lançamentos da categoria terão um grande desafio pela frente.

 

OS Erros e Acertos de Bohemian Rhapsody

Não há dúvidas que o maior acerto de Bohemian Rhapsody foi a escolha do ator Rami Malek para interpretar o dificilimo papel de Freddie Mercury. O ator não era a primeira opção, Sacha Baron Cohen era o escolhido e deixou a produção em 2013, por divergências com Brian May e Roger Taylor, integrantes do Queen, que lideraram a produção.

Bohemian Rhapsody Rami Malek
Freddie Mercury, a lenda, e Rami Malek que deu corpo à interpretação digna de Oscar.

Rami fez bem a lição de casa. A construção e a incorporação do personagem são de tirar o chapéu. Não a toa, ganhou o prêmio de Melhor Ator em filme de drama, no Globo de Ouro, e é indicado ao Oscar por sua brilhante interpretação de Freddie Mercury. A cerimônia acontece no próximo domingo, 24, e o ator é o grande favorito.

Mas se Rami Malek foi uma grande e boa surpresa, uma caracteristica física de Freddie teve uma roupagem um tanto quanto exagerada. O sorriso avantajado de Freddie Mercury ganhou uma versão desnecessária e caricata de extremo mal gosto. Pesaram na mão.

Além da forçada de barra no quesito boca, o filme traz ainda vários fatos que não correspondem com a realidade, principamente aqueles relacionados a cronologia. Será mesmo que dá para mudar a história real apenas para encaixar melhor no roteiro?

Um desses deslizes, já falado muitas vezes por diversas publicações, foi o fato de que o filme mostra que Freddie Mercury conta aos integrantes da banda que estava com HIV antes da performance do Live Aid. Vale lembrar que o evento histórico aconteceu em 13 de julho de 1985, mas sequer Freddie sabia, naquela data, que tinha sido contaminado. Freddie teria sido diagnosticado entre 1986 e 1987, numa data nunca revelada. A impressão que dá é de que se quis trazer esse assunto para o filme, já que este foi o motivo da morte do cantor, apenas para não deixar de fora do roteiro, já que precisavam terminar o longa com a sequência do Live Aid.

A verdade das telas conta mais do que a realidade dos fatos? Quando retratata no cinema, tais “verdades” não passam de fato a serem creditadas como acontecimentos reais?

Algumas publicações divulgaram suas observações sobre os erros que identificaram no enredo do filme e que não correspondem com a verdade dos fatos. Eis alguns deles:

  • Freddie entra na banda: O filme mostra que Freddie Mercury, após uma briga com seus pais, vai parar no show da antiga banda de Brian May e de Roger Taylor e, naquela mesma noite, com a saída do então vocalista, ele entra para a banda. Mas na verdade, o que parece ter sido obra do acaso, no filme, foi apenas consquência. Freddie era amigo do então vocalista Tim Staffell e era fã da banda, inclusive havia recebido diversas vezes convites para fazer parte da formação, mas aceitou apenas quando seu amigo saiu. Outro ponto ainda é o fato de que antes de serem companheiros de banda, Freddie e May dividiram um quarto enquanto estavam na universidade.
  • O encontro com Mary Austin: Enquanto no filme Mary Austin, sua futura namorada, entra na vida de Freddie depois de poucos segundos que ele entrou para a banda, na vida real isso não aconteceu até que ele se tornasse o vocalista definitivo do Queen, já que teve um relacionamento prévio com Brian May.
  • Jim Hutton: O grande amor da vida de Freddie foi Jim Hutton. O cara não era garçom, como o filme mostra, mas sim cabelereiro. E não foi na festa na sua casa que se conheceram e, sim, numa boate. Jim Hutton foi aquele que ficou com Freddie até a sua morte, em 1991. Jim morreu vítima de câncer, em 2010.

Outros erros que somente os reais fãs sacaram foram listados pela revista norte-americana Rolling Stone.

LIVE AID E O QUEEN

Claro que os fãs do Queen adoraram a passagem do longa que reproduz a histórica performance da banda no Live Aid, em 1985. Não há dúvidas de que se você pensa em Live Aid, você associa – imediatamente – à figura de Freddie Mercury encantando aquela multidão. Aquele foi o ponto alto da carreira da banda e  Bohemian Rhapsody quis deixar bem claro isso.

Mas precisava ser uma sequência daquele tamanho? Cabe num longa uma performance  na integra que dura ao menos 15 minutos? Os fãs amaram, cantaram junto – inclusive diversas salas de cinemas exibiram uma versão com as letras originais para que os fãs pudessem acompanhar a cantoria – mas não fazia muito sentido ter a sequência inteira. Um final épico para maioria, claro, mas poderia ter sido explorado de outra forma.

Há de ressaltar o brilhante trabalho de efeitos que reproduziram o lendário estádio de Wembley. Uma reconstrução virtual que deixou muita gente em dúvidas do que era real e o que era puramente efeitos especiais. Dá uma olhada nesse video de backstage para entender melhor sobre o que foi feito nesse processo.

 

O INTRIGANTE FREDDIE MERCURY

Muitas vezes eu me pergunto se os artistas, músicos que faleceram, o que eles pensam sobre suas obras tributo e lançamentos póstumos. Será que Freddie Mercury ficaria contente com a forma que foi retratado nas telonas? Talvez só saibamos a resposta quando passarmos para o outro plano.

O cantor que faleceu aos 45 anos, em 1991, tinha um talento nato. Bohemian Rhapsody é a constatação da sua firmeza naquilo que acreditava, mesmo que ela viesse acompanhada de uma arrogância e hostilidade inseparáveis. Freddie era intrigante e um experimentador inquieto. Mas ao mesmo tempo que era grande no palco, era frágil e pequeno fora dele.

Freddie Mercury Bohemian Rhapsody HIV
Freddie Mercury foi diagnosticado com HIV e lutou contra a doença longe dos holofotes.

Se Bohemian Rhapsody narra a vida de Freddie Mercury, como deixar de lado os seus momentos finais? Por que não aproveitar a oportunidade e o interesse dos seus fãs em dedicar uma parte do seu roteiro para a sua luta contra a AIDS, considerada uma peste, o câncer gay, nos anos 80?

A vida de Freddie certamente não foi apenas os holofotes e o glamour que as pessoas gostam de maquiar. O seu lado depressivo, as brigas internas consigo próprio, a solidão, o vazio existencial narrado em diversas biografias como, na minha favorita, “Bohemian Rhapsody – The Definitive Biography of Freddie Mercury“, da jornalista Lesley-Ann Jones, contam  muito mais sobre o mito que era o cantor.

Freddie Mercury era uma combinação de nicotina, vodca, vinho e cocaína. Claro que temos que ressaltar a sua incrivel contribuição ao mundo, mas não dá para romantizar tudo. Seu comportamento fez dele escravo de si. Ele reconhecia que tinha criado um ser maior do que podia carregar. “Criei um monstro. O monstro está em mim. Não posso culpar ninguém. Isso é o que eu trabalhei para construir desde a infância. Eu teria matado para ter isso. O que vir a acontecer comigo é minha culpa. É o que eu queria. É tudo o que nós queremos. Sucesso, fama, dinheiro, sexo, drogas. O que você quiser,. eu posso ter. Mas agora estou começando a ver que conforme eu crio, mais tenho o desejo de fugir. Estou começando a me preocupar que não consigo controlar, o tanto que isso me controla“, Freddie desabafa a jornalista Lesley-Ann Jones.

A vida de Freddie Mercury é muito maior do que poderia caber em 120 minutos. Bohemian Rhapsody é uma boa homenagem, uma consagração do seu talento para gerações passadas e as que virão. Seu legado está aí. Um verdadeiro showman, um dos maiores que já vimos.