Liniker e os Caramelows brilham em ‘Goela Abaixo’

Capa disco Liniker e os Caramelos

Cercada de grande expectativa, a banda Liniker e os Caramelows lança Goela Abaixo, o segundo disco da trupe, diante de um contexto social mais conservador e um país em frangalhos, numa divisão política que insiste em nos acompanhar. É preciso ter voz e Liniker é uma delas.

Negra, mulher trans e vivendo em um Brasil cada vez mais conservador e atrasado, o país que mais mata mulheres trans em todo o mundo, é um desafio e uma luta diária. Já faz quase quatro anos que a cantora Liniker, acompanhada dos Caramelows, esfregou bem na nossa cara o seu talento. E que talento. O tempo passou e hoje Liniker e os Caramelows são reconhecidos no Brasil e também fora dele.

GOELA ABAIXO: UM DISCO QUE DESCE FÁCIL

O segundo álbum de Liniker e os Caramelows, Goela Abaixo, finalmente chegou ao nossos ouvidos. Foi lançado, na última sexta (22), por coincidência, numa semana muito intensa. A prisão, mesmo que preventiva, do ex-Presidente da República Michel Temer apenas escancarou ainda mais a situação calamitosa que vivemos, de sentimento de impunidade, de que somos constantemente abusados e estuprados pelos nossos governantes., da velha e da dita “nova” política. Enquanto o disco desce fácil “goela abaixo”, o que podemos falar dos nossos representantes que a cada dia se esforçam com demonstrações criminosas?

Se o país parece não ter jeito, a música é a nossa arma. E Goela Abaixo, o álbum, nos traz a essência feminina, transgressora, libertária e que não foge à luta. Diversidade e pluralidade fazem parte do DNA da banda que as explora  muito bem em letras intensas e, principalmente, na sua melodia. Os instrumentos usados, a harmonia, a produção requintada faz deles uma orquestra contemporânea que nos faz viajar nas ondas das suas vibrações. É uma viagem sem volta que a gente não reclama de forma alguma, mesmo que o mundo externo à obra seja/esteja caótico.

Com a explosão do primeiro álbum, o Remonta, lançado em 2016, a expectativa pelo novo material tem sido imensa. Mas Goela Abaixo pode respirar aliviado. Conseguiu com sucesso entregar músicas potentes, cheias de força e gostosas que não dá vontade de pular faixa alguma. Tudo está no lugar certo.

As minhas favoritas? De Ontem, Bem Bom que traz a parceria com a cantora Mahmundi, Calmô, a maravilhosa Intimidade e, claro, a faixa Goela que encerra o álbum com um timão fazendo um coral para ninguém botar defeito: Josyara, Juliana Strassacapa, Ayiosha Avellar, Natália Nery, Grasielli Gontijo, Tássia Reis, Mel Gonçalves e Lina Pereira.

Nestes três anos, desde o lançamento de Remonta, Liniker e os Caramelows tiveram a chance de rodar o país, tocar em festivais, e também fora do país. Só em 2018 foram 45 apresentações no exterior, atingindo a marca de 20 países. Se por aqui os números ainda são assustadores em relação à violência contra as mulheres trans, Liniker e os Caramelows são aplaudidos pelo mundo. Se depender de Goela Abaixo, eles darão sequência no prestígio, porque provam o quanto são brilhantes.

UMA REPRESENTANTE E TANTO DAS MULHERES TRANS

Uma mulher trans conseguir tamanho destaque é fenomenal. De origem pobre e negra, Liniker convive com preconceito desde pequena, imagine ainda somando ao fato de ser trans?

A cantora reconhece a sua força como mulher empoderada, que representa tantas e tantas outras garotas que sempre foram marginalizadas e vistas de forma pejorativa pela sociedade. E sua dor, suas angústias são traduzidas na sua vontade de viver, que vem através da música.

Recentemente vimos o triste caso vivido pela cantora Raquel Virgínia, da banda As Baias e a Cozinha Mineira, que foi vítima de uma covarde agressão verbal proferida por um segurança de um shopping na capital paulista. Na ocasião, de acordo com a própria cantora, o funcionário teria a chamado de “prostituta”, pelo fato dela ter tentado intervir numa abordagem duvidosa  e preconceituosa contra jovens negros que circulavam nos corredores do Bourbon Shopping, na zona oeste de São Paulo. Não foi do que ela foi chamada que a constrangeu, mas as razões por ter sofrido ataque gratuito.

Mulheres, gays, negros… as minorias – como somos vistos por uma sociedade antiquada – sempre foram marginalizados e atacados. Ver que a música tem, a cada dia que passa, se tornado um espaço para falar abertamente das questões que envolvem a gente, tem sido um passo e tanto nos dias sombrios que vivemos e iremos viver.

As persspectivas não são muito boas. Ainda somos um dos países que mais mata mulheres no mundo. Também somos um dos países que mais mata gays e tem o maior número de registros homofóbicos do planeta. O Brasil não é nada convidativo para uma jovem trans. A expectiva de vida de mulheres trans no Brasil não ultrapassa os 35 anos! TRINTA E CINCO ANOS!!! Enquanto a nossa média geral, como população, ultrapassa os 70. Mas quem está aí por nós?

A representatividade que tanto Liniker, Raquel, Assussena, Glória, Pabllo, Linn, Lia … e tantas outras tem conquistado, mostra que esse é um caminho que não tem e NÃO PODE ter volta. Não vão colocar a gente no armário novamente, tampouco em caixões como outras tantas foram colocadas. Os crimes serão denunciados e nenhum ataque será em vão! Não irão nos calar. NUNCA MAIS!

Ouça agora o álbum Goela Abaixo e siga a banda no IG.