Patti Smith: Essentials

Patti Smith

Ativista, cantora, poeta, escritora, fotógrafa, artista plástica, compositora e diva. Patti Smith, ao longo dos anos, se tornou uma das mulheres mais importantes para a história do rock e uma das mais influentes personalidades da cultura contemporânea. São 43 anos de carreira, 11 discos de estúdio, diversos livros lançados e uma vida pública dedicada a arte. Bem-vindos ao primeiro Essentials, do Música Inspira. E que maravilha começar falando de Patti Smith!

PATTI SMITH, a dama do rock! 

Falar de um astro da música nem sempre é tão fácil quanto parece ser, principalmente quando esse astro é ninguém mais do que Patti Smith. Falar então do que é essencial na sua carreira, para novos ouvintes, é uma responsabilidade ainda maior. Se eu falasse para esses novos fãs ouvirem as faixas mais tocadas, mais famosas ou uma compilação com seus melhores hits seria fácil, basta entrar nos serviços de streamings e reproduzir as listas principais, mas a gente quer mais.

Essentials Patti SmithPatti Smith causou alvoroço na sua passagem pelo Brasil, em novembro passado. Pela primeira fez na sua carreira, fez shows em São Paulo e foi muito bem recebida por uma plateia com gente de toda idade, no Popload Festival. A receptividade foi tão positiva que a apresentação da cantora foi eleita, por leitores da Folha de São Paulo, como o melhor show internacional de 2019 na cidade.

Uma das melhores maneiras de conhecer Patti Smith é ouvir e ler com atenção o que ela se propõe a fazer. O livro Só Garotos, lançado em 2011, não é um best seller por acaso. É um relato cru das suas origens, da sua história, da sua vida precária em Nova York, nos anos 60, ao encontro com o seu grande amor, o artista e fotógrafo Robert Mapplethope, sua entrada para o mundo da música e sua evolução como artista. Vale a pena ler o livro para entender um pouco mais sobre o mito que a cantora se tornou.

PARA LER E OUVIR

Você já sentiu uma energia tão grande vinda de um artista a ponto de achar que ele não é desse planeta e duvidar se realmente existe? Pois bem, é exatamente isso que eu sinto quando falo sobre Patti Smith.

Patti Smith já ultrapassou todas as barreiras e detém um lugar de prestígio na música. Sua presença, hoje em dia, é vista quase como a de uma xamã que orienta seus súditos e que carrega em si o poder da cura. É assim que podemos descrever a música de Patti: um sagrado ‘passe’, com energias do bem para gente tentar manter a sanidade nesse mundo louco.

Claro que vai parecer clichê, mas não dá para começar a falar da obra de Patti Smith sem abrir os trabalhos com o lendário Horses. O disco de estreia da carreira da cantora é uma obra prima da música, considerado um dos melhores discos da história da música. E por que? Porque Horses é um grito de liberdade, pela atitude que carrega. Patti Smith é também conhecida como uma das donas do punk rock e vale pontuar que Horses foi lançado alguns meses antes do primeiro disco do Sex Pistols, em 1975, considerada a maior banda de punk de todos os tempos. Podemos dizer então que Patti estava preparando o caminho para o que viria a seguir.

Quem ousaria a iniciar seu disco de estreia dizendo que “Deus morreu pelos pecados de alguém, mas não os meus”, há 45 anos? Falar desse verso em 2020 parece até piada, visto que tivemos tantos artistas que falam de temas religiosos, atacam livremente, causam polêmicas, mas imagina como deve ter soado os versos iniciais de Gloria: In Excelsis Deo em meados dos anos 1970? Patti Smith representava o nascimento de uma cena musical forte, contracultura, cheia de revolta e que queria mesmo era colocar pra fora tudo o que estava entalado.

Essentials Patti SmithMas quer entender mais do que Patti queria dizer, a minha favorita é a longa e multifacetada Land. É aqui que Patti une suas paixões para entregar uma das melhores faixas da sua carreira: poesia e música num só lugar. É uma faixa intensa, cheia de significados e que melhora a cada audição. São quase dez minutos de uma tradução quase que literal do que realmente é rock’n’roll e a atitude crua, rústica que vem no pacote.

Pulando quase 40 anos do lançamento de Horses, a gente vai para o disco mais recente da cantora, lançado já há quase 10 anos. Banga, de 2012, traz entre as faixas uma linda homenagem à Amy Winehouse, na faixa This is The Girl. Amy faleceu em julho de 2011, em sua residência em Londres. Diversas causas “oficiais” foram divulgadas entre elas por overdose de drogas e álcool.

O legal de analisar é o quanto Patti se manteve coerente ao seu discurso e fiel ao seu som, ao que faz de melhor. As poesias continuam lá, o som rasgado sem muito tratamento – por mais que tenha – parecem naturais e muito pertencentes de si. A faixa título Banga é um ótimo exemplo, além de validar o calibre de compositora, como se fosse preciso.

 

A PAIXÃO POR ARTHUR RIMBAUD e bob dylan

Dois nomes que são essenciais para a formação da artista que Patti Smith é são do poeta francês Arthur Rimbaud e do cantor Bob Dylan. A fixação por Rimbaud é tanta que, em 2017, Patti chegou a comprar a cara onde ele morou, na França, na sua juventude.

Patti Smith esconde o rosto com o livro de Rimbaud.

Em uma entrevista concedida ao Independent, nos anos 2000, Patti disse que “Se ele (Rimbaud) estivesse vivendo no nosso tempo, ele estaria no topo da colina com os deuses do rock como Jimi Hendrix, Jim Morrison e Bob Dylan … porque ele tinha todos os componentes para tal: ele era irreverente, mas espiritualista, um visionário e experimental”. A cantora chegou a sonhar, na adolescência, que Rimbaud seria uma espécie de namorado para ela.

Pra ilustrar, se ainda há alguma dúvida sobre a afeição de Patti quanto a Rimbaud, a cantora se juntou ao Soundwalk Collective, em 2019, e lançou dois álbuns experimentais que podem ouvidos nas plataformas de streaming. Em suas composições, Patti chegou a usar versos de Rimbaud e até homenageia o artista na faixa La Maison de Rimbaud que conta ainda com a participação mais do que especial do talentoso pianista Philip Glass.

Rimbaud viveu pouco mas o suficiente para entrar para história. Vítima de câncer, faleceu aos 37 anos e jamais teve a oportunidade de conhecer sua maior fã. Por outro lado, outro poeta, provocador e um dos músicos mais espetaculares que a cultura norte-americana poderia ter criado é Bob Dylan.

Antes de se tornar amiga pessoal de Dylan, Patti era fã devota do cantor e também escritor. Bob Dylan ganhou o Prêmio Nobel de Literatura (2016), o primeiro músico a ganhar tal honraria, pelas suas composições musicais. Muito reservado, Dylan não foi à premiação e mandou sua amiga Patti Smith para receber o prêmio e ainda fez uma performance especial. Em entrevista ao El País, Patti opina que a premiação “não só reconhecia sua obra, mas sua enorme influência”. “Ninguém esteve mais perto do que ele de fazer literatura a partir da música. Há política e compromisso e paixão e luta no que ele escreve, e não deixou de evoluir, tem tantas facetas como Picasso.”

Foi na sua performance no Prêmio Nobel que Patti se mostrou ainda mais humana. Sua paixão por Dylan estava a flor da pele e Patti se emocionou a ponto de se perder na música, pedindo para recomeçar. Dá uma vontade de dar um abraço nela. Ela apenas estava homenageando um dos seus maiores ídolos e o representando no evento a pedido do próprio Dylan! Quem não ficaria nervoso?


Se quer entender um pouco sobre Patti Smith, precisa entender um pouco de Rimbaud e Dylan, suas maiores e principais influências. E querida Patti: o mesmo topo da montanha que você colocou Rimbaud, a gente coloca você lá em cima, entre as gigantes da nossa história.

Navegue por sua conta e risco na obra de Patti e não tenha medo, você não sairá o mesmo, pode apostar. Mas, com certeza, sairá bem melhor. 08

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