Streaming e a revolução da década

Music Streaming

A década de 10 ficará conhecida como a década de mais uma revolução na indústria da música: uma revolução chamada streaming. Enquanto muitos executivos do music business torciam o nariz, hoje comemoram as altas cifras que tem garantido sobrevida a um mercado bastante sensível.

A MÚSICA NA NOSSA VIDA

A música é uma parte essencial de nossas vidas, direta ou indiretamente. Quando você liga sua TV pra assistir qualquer coisa, lá ao fundo que seja, está tocando uma música. Seja na sua novela favorita ou em uma propaganda de um intervalo comercial de um noticiário qualquer, lá estará um jingle, uma musiquinha característica pra chamar sua atenção.

Na sua igreja ou templo, na sua escola ou faculdade, como meio de expressão de sua fé, arte ou trabalho, nas ruas em um carro em um congestionamento de qualquer cidade grande, ou em um carro vendendo qualquer coisa, na feira, no supermercado, principalmente no seu bar favorito, lá está ela.

A música é intrínseca ao cotidiano e faz com que a gente crie uma conexão emocional com ela. Para além disso, a música como produto é um dos principais vetores da indústria do entretenimento. É ainda um dos principais motores da economia de cidades inteiras, vide grandes festivais tradicionais de música que acontecem periodicamente em diversas localidades espalhadas pelo mundo.

Quando a gente entende que a música em si, seja como fonte de propaganda, diversão, entretenimento diverso ou produto, é uma parte principal de nós, ao mesmo tempo, a gente compreende que ela precisa acompanhar a nossa evolução. Tanto em seus inúmeros estilos e camadas, tanto como o produto que, no fim, ela é.

A divulgação do produto

Música vende e vende muito (de certa forma) desde que o mundo é mundo, isso é um fato. Tanto como algo físico em si, como em que ela resulta – shows, apresentações, marcas registradas, propagandas, etc.

Mas pra que isso aconteça, para que a música traga resultados reais e rentáveis, ela precisa ser criada, divulgada e, principalmente vendida. Ao longo dos anos a gente viu e viveu como esse mercado evoluiu e cresceu, ao tempo que levava um tombo daqueles.

Do vinil, ou LP, ao disco compacto de 80 minutos, chegando as vendas astronômicas e revolucionárias de singles e, logo em seguida, das músicas digitais onde a gente teria o poder de escolher o que exatamente a gente queria comprar, chegando ao dias de hoje, onde a principal fonte de criação, divulgação, venda e rentabilidade se deve a uma verdadeira revolução no mercado: o streaming.

Enquanto há dez anos, aproximadamente, um artista teria uma dificuldade gigantesca em divulgar seu trabalho, isso somada a todo aquele trabalho e dificuldades que ele já enfrentava e vai continuar enfrentando, para gravar e produzir um bom trabalho, hoje ele encontra essa “facilidade”. Suas músicas tem quase que as mesmas chances de chegar até outras pessoas que um artista com anos de carreira possui – claro, sabemos que na prática talvez isso não funcione.

Um artista independente do seu bairro, seu vizinho que seja, conseguindo gravar e produzir profissionalmente algumas canções, tem a mesma facilidade de atingir toda uma comunidade que nomes como Marília Mendonça (ouvida mais de 1,5 bilhões de vezes só no Spotify), Pabllo Vittar (ouvida em quase 80 países, fazendo da drag queen uma das artistas brasileiras mais ouvidas no mundo) ou até mesmo Drake (artista mais ouvido no mundo com mais de 28 bilhões de reproduções, números também do Spotify). Mas claro: descontando todo aquele “jabá” pesado.

A principal arma contra a pirataria

Até o início dos anos 2000, a principal fonte de divulgação e venda de músicas era por meio de mídias físicas, seja LP, fitas K7, CDs ou CDs singles. Era unânime também como a música era criada e também divulgada. Apresentações em programas de TV e premiações eram partes pra lá de necessárias para que artistas atingissem patamares cada vez maiores.

O disco No Strings Attached da boy band N’Sync, por exemplo, lançado lá no comecinho da década de 2000, mais precisamente em março de 2000, demorou longas (para época) 43 semanas (pouco mais de 10 meses) para atingir o número de 10 milhões de cópias vendidas no mundo todo, o que artistas (se não forem a Adele, claro) atualmente demoram anos – e provavelmente nunca conseguirão.

Mas aí surgiu o mp3. Primeiramente criado como forma de compactar músicas e possibilitar a venda pela internet de forma mais prática e ágil, o formato logo se tornou uma arma poderosíssima para a pirataria. Rapidamente foram criados meios para fazer a música ficar, digamos, de graça. Mesmo que ilegalmente.

Esse foi o tiro no pé da indústria fonográfica. Suas vendas que atingiam patamares altíssimos até o início do milênio, passaram a se contentar com números cada vez mais “humildes”. O disco mais vendido da década de 1990, Come On Over da americana Shania Twain, vendeu algo em torno das 40 milhões de cópias. Um número expressivamente enorme, porém já na década seguinte o #1, coletânea dos Beatles que foi o disco mais vendido, atingiu a marca de 11.515.000 cópias comercializadas, número bem abaixo em relação ao clássico de Shania.

Após anos e anos em baixa, a indústria viu uma luz no fim do túnel quando, em 2008, era lançado o Spotify. Ainda com uma tecnologia considerada arcaica e carente de muitas mudanças e melhorias, o serviço inédito e revolucionário tinha como objetivo proporcionar um acesso mais fácil e barato a músicas de forma legal.

Hoje com o serviço, as pessoas não precisam a todo momento baixar músicas de forma ilegal, o acesso a milhares de canções e álbuns está a poucos cliques de distância.

Além da facilidade, serviços como o já bastante citado Spotify, o popular Deezer, Tidal, Amazon Music e o mais recente e prepotente YouTube Music, oferecem planos especiais para primeiros cadastros, com descontos enormes, preços pífios ou ainda meses grátis, tudo para que o consumidor que ainda resiste, consuma música de forma legal. A maioria então se pergunta: “por que baixar uma música que, querendo ou não, dá um certo trabalho, se eu posso ouvir nesse app aqui?”

Segundo o que consta, a pirataria diminuiu algo em torno dos 25% em países de 1º mundo como a Suécia (país onde o Spotify foi idealizado). As pessoas, em um português mais claro, ficaram com preguiça de buscar algo pra download e optaram por consumir músicas de uma forma mais prática.

O Poder do Streaming

Quando você abre seu Spotify, seu Deezer, ou qualquer outro desses apps e, escolhe determinada música ou disco pra ouvir, automaticamente você está contribuindo para que aquela canção melhore sua posição nos charts, contribui com os repasses financeiros a artistas (que são bem vergonhosos diga-se de passagem), empresários e, principalmente, gravadoras que, por sua vez, são as donas de grande parte da renda obtida.

Desde 2014, as execuções feitas nesses serviços contam como parte importante para que certas músicas e discos atinjam o ponto mais alto de charts da Billboard, principalmente. Antes disso, ainda em 2013, a principal publicação sobre música, passou a considerar vídeos mais reproduzidos no YouTube em suas contagens. Foi assim que virais como Harlem Shake, do DJ e produtor Bauer, atingiu o #1 na Hot 100 – em março de 2013.

Hoje a revista Billboard abandona a contagem de virais e faz uso, principalmente, dos altos números de reproduções em serviços de streaming, incluindo clipes e áudios disponíveis no Youtube – que tem seu acesso massivamente gratuito.

Mas importante reforçar e como não haveria deixar de ser, as canções reproduzidas nos mesmos serviços, só que nas contas premiums, ou seja, aquelas versões pagas, tem uma importância maior do que reproduções feitas “de graça”, nas versões básicas dos planos dos serviços de streaming.

O fim do iTunes

O iTunes é um outro serviço pioneiro na evolução de como consumimos música, ditando principais rumos de como se consome música. Se antes tínhamos que comprar um disco completo, mesmo quando gostávamos de uma música somente, após o serviço da Apple ser lançado, poderíamos ir à loja virtual e comprar exatamente aquele som que nos chamou a atenção, uma única faixa.

Ao mesmo tempo, mesmo que indiretamente, o iTunes e sua popularização deu uma impulsionada na disseminação do mp3 em “serviços” como Napster e E-mule, principais e mais populares programas de compartilhamento de arquivos P2P, e Torrents que hoje é a principal fonte de pirataria. Além disso, suas vendas se tornaram importantíssimas para contagens em todos os charts mundo a fora e, principalmente, pra rentabilidade de artistas e companhias.

Mas estamos aí diante de outro efeito do avanço do streaming: a Apple, criadora e detentora do iTunes, anunciou o fim de sua loja de músicas. Os números em vendas caíram e o streaming abocanhou a popularidade dessa e outras lojas. Hoje não compensa nem um pouco deixar de pagar uma mensalidade e ouvir milhares de canções, álbuns e podcasts para pagar um único valor para ouvir uma única música.

O efeito Contrário DO STREAMING

É muito bom para nós enquanto consumidores pagar uma tarifa mensalmente e ter acesso a horas e horas e mais horas de conteúdo. Uma quantia que gira em torno dos R$ 16,90 (valor da mensalidade básica do Spotify e Amazon Music Unlimited) podemos passar dias ouvindo músicas sem limites.

Porém, tudo nesta vida tem seu lado obscuro: os repasses feitos aos artistas, aos donos dessas músicas, são valores baixíssimos. Para se ter uma clara ideia, se um artista tiver sua música ouvida por 22.124 pessoas no YouTube (fonte principal de acesso de forma gratuita a músicas) seu faturamento será o total de R$ 1,00. Isso mesmo, um real.

Para ter o grandioso faturamento de 1 único real, no formato gratuito do Spotify (bastante popular no Brasil), o artista precisa ter sua canção ouvida mais de 16.600 vezes, diminuindo para 2.077 vezes se as contagens forem feitas considerando apenas usuários que pagam pelo serviço.

A Apple, ao que consta, em seu serviço Apple Music chega a exigir um número consideravelmente menor de reproduções, mas ainda alto, para pagar mísero 1 real ao artista: 862 vezes no plano família (que é mais barato considerando o número de usuários possíveis) e 446 plays no plano individual.

Importante lembrar aqui de uma briga histórica que chacoalhou a indústria da música na década passada. Taylor Swift publicou uma carta aberta ao Spotify justificando, na época, o porquê da sua decisão de não ter seus discos publicados na plataforma, justamente por conta dos baixos ganhos contabilizados com a reprodução de suas músicas. O lado ingrato dos serviços de streaming.

Se uma artista do calibre de Taylor reclama, imaginem só o quanto faturam os artistas menores, muitas vezes independentes, que não contam com assessoria alguma? O buzz foi tanto que a própria indústria da música começou a se reorganizar e a exigir pagamentos “mais justos” aos seus artistas. E Taylor foi papel fundamental para uma mudança histórica neste processo.

Não se faz – e nem se ouve – álbuns como antigamente

Em 2013, quando Beyoncé lançava de surpresa seu auto-intitulado disco e fazia dele um fenômeno instantâneo, o público se surpreendeu com o fato da artista ter gravado 18 videoclipes. Além de uma estratégia arriscada, era também uma forma de fazer seu público e um outro ainda novo, a ouvir de verdade um disco inteiro.

Com as vendas particionadas de discos pelo iTunes e o rápido e fácil acesso a elas pelos serviços de streaming, consumidores estão cada vez menos empolgados em parar por cerca de 60 minutos para ouvir um disco completo. Aquela experiência em ouvir um álbum especial e delicadamente (na maioria das vezes) construído por artistas de verdade, vem morrendo pouco a pouco.

Hoje é mais rentável a maioria dos artistas lançarem singles avulsos, hora para se manterem relevantes, hora para ainda ter lucros de seu trabalho. Passar meses e meses na concepção de um disco com 10 faixas que seja, parece cada vez mais raro.

Artistas como Jennifer Lopez e a brasileira Anitta já declararam que não mais vale a pena lançar discos (seja por pouca rentabilidade, seja por chamar menos a atenção).  Anitta ainda voltou atrás e insistiu ao lançar o Kisses, no primeiro semestre do ano passado. Outros ainda que estão relutantes em lançar álbuns, optam por criar e lançar EPs, formatos de discos cada vez menores, mais práticos e rápidos de consumir – sim, a música se tornou ainda mais um produto.

Além dos discos ficarem menores, mais curtos e cada vez mais raros, as músicas estão cada vez mais curtas e, talvez,  mais confusas, seguindo um mesmo padrão. Músicas girando em torno dos 3 minutos ou menos, e canções criadas para chamarem a atenção do ouvinte logo nos primeiros segundos – a reprodução só é levada em conta, contabilizada, nas plataformas após, pelo menos, 30 segundos de reprodução.

Segundo Hubert Léveillé Gauvin, musicólogo canadense, em sua tese de doutorado da Universidade Estadual de Ohio, EUA, que analisou mais de 300 canções que frequentaram o top 10 dos charts americanos entre 1986 e 2015, constatou que a fase introdutória dessas canções, isto é, a parte instrumental da canção até quando se pode ouvir a voz do intérprete, diminuiu em 78% durante o período.

Em 1986, normalmente ouvia-se voz nas músicas após 20 segundos, hoje, já aos 5 segundos . Isso sem contar quando as músicas já se iniciam com seu refrão, o que é cada vez mais comum.

a revolução definitiva e para onde vai o streaming?

Hoje há um consenso em como o streaming mudou pra sempre como a gente consome música e como a indústria a vende. Talvez seja esse serviço  a maior revolução desde que as músicas passaram a ser compactadas em discos menores de até 80 minutos.

Porém, sua rentabilidade é cada vez menor e dificilmente artistas estão contentes com toda essa evolução. O que nos faz pensar e ansiar por novos modos e meios de se produzir e consumir esse tipo de conteúdo.

Mas será que haverá realmente algo que revolucionará e muito a forma como consumimos música?

Por fim, é impensável, em pleno 2020,  como nos tornamos dependentes de um formato e como dificilmente esse formato deixará de ser primordial, afinal mesmo que pagando pouco e ainda ser vulnerável à pirataria digital, cada vez mais encontramos novos serviços, com novas facilidades e cada vez mais populares. Pra onde a música nos levará nos anos a frente? Qual será o destino dos serviços de streaming? Qual será a tecnologia que irá transformar, mais uma vez, a forma como ouvimos música? Vamos ter que dormir com essa reflexão.


Leia: Review: Como A Música Ficou Grátis?